Bruna Talarico Jornal do Brasil

A cabeleireira Regina Maria Santos, 48 anos, possui no próprio corpo as marcas da espera pelo transplante. Nos braços, ela vê as consequências de seis anos de hemodiálise, realizada três vezes por semana, sem interrupção. Com a transferência dos transplantes de fígado do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ, para o Hospital Geral de Bonsucesso, no subúrbio do Rio, a cabeleireira vê a situação dos pacientes em espera, já caótica, piorar ainda mais.

– O que aconteceu é, pra gente, um balde de água fria. A maioria de nós é paciente do SUS, não temos condição de pagar R$ 250 mil por um órgão – reclama, indignada com as fraudes na fila de transplantados de fígado. – A sensação é a de que o pobre não tem vez. Hoje, manda quem tem dinheiro.

Regina convive há quatro anos com o drama da espera na fila do transplante de rim do Hospital Geral de Bonsucesso. Com dois irmãos na mesma situação e um já operado no Hospital do Fundão pela equipe do médico Joaquim Ribeiro Filho, preso na manhã de quarta-feira por fraudes na lista de transplantes, Regina tem a rotina marcada pela falta de orientação médica e a impotência diante do descaso das autoridades da área de saúde.

– Nós não temos perspectiva nenhuma. A fila no Hospital de Bonsucesso é enorme, morre gente na espera. O que já era lento vai demorar ainda mais – preocupa-se. – Estamos todos constrangidos. Quem vai querer doar órgãos, agora que é comércio?

Alfredo Pereira Duarte Filho, vice-presidente da Associação de Doentes Renais e Transplantados do Estado do Rio de Janeiro (ADRETERJ), expôs ao JB a preocupação com a repercussão das fraudes.

– A solução encontrada pela coordenação de transplantes em concentrar todos os procedimentos no HGB pode levar a um colapso no sistema,já que ele não está preparado para atender a demanda – ressalta. – Mas por outro lado, não temos alternativa, já que não existe outra unidade pública no município que faça este tipo de procedimento.

Alfredo, que recebeu o transplante de rim há 8 anos, no Hospital de Bonsucesso, acredita que haverá uma queda brusca no número de doadores.

– A pessoa doa para o Estado, não para o comércio. Eu sinto isso como se estivesse na fila, esperando, e estivesse achando que nunca seria transplantado – declara.

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A dor de quem aguarda a chance de sobreviver

Publicado: 1/08/2008 | 10:36


Bruna Talarico
Jornal do Brasil

A cabeleireira Regina Maria Santos, 48 anos, possui no próprio corpo as marcas da espera pelo transplante. Nos braços, ela vê as consequências de seis anos de hemodiálise, realizada três vezes por semana, sem interrupção. Com a transferência dos transplantes de fígado do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ, para o Hospital Geral de Bonsucesso, no subúrbio do Rio, a cabeleireira vê a situação dos pacientes em espera, já caótica, piorar ainda mais.

– O que aconteceu é, pra gente, um balde de água fria. A maioria de nós é paciente do SUS, não temos condição de pagar R$ 250 mil por um órgão – reclama, indignada com as fraudes na fila de transplantados de fígado. – A sensação é a de que o pobre não tem vez. Hoje, manda quem tem dinheiro.

Regina convive há quatro anos com o drama da espera na fila do transplante de rim do Hospital Geral de Bonsucesso. Com dois irmãos na mesma situação e um já operado no Hospital do Fundão pela equipe do médico Joaquim Ribeiro Filho, preso na manhã de quarta-feira por fraudes na lista de transplantes, Regina tem a rotina marcada pela falta de orientação médica e a impotência diante do descaso das autoridades da área de saúde.

– Nós não temos perspectiva nenhuma. A fila no Hospital de Bonsucesso é enorme, morre gente na espera. O que já era lento vai demorar ainda mais – preocupa-se. – Estamos todos constrangidos. Quem vai querer doar órgãos, agora que é comércio?

Alfredo Pereira Duarte Filho, vice-presidente da Associação de Doentes Renais e Transplantados do Estado do Rio de Janeiro (ADRETERJ), expôs ao JB a preocupação com a repercussão das fraudes.

– A solução encontrada pela coordenação de transplantes em concentrar todos os procedimentos no HGB pode levar a um colapso no sistema,já que ele não está preparado para atender a demanda – ressalta. – Mas por outro lado, não temos alternativa, já que não existe outra unidade pública no município que faça este tipo de procedimento.

Alfredo, que recebeu o transplante de rim há 8 anos, no Hospital de Bonsucesso, acredita que haverá uma queda brusca no número de doadores.

– A pessoa doa para o Estado, não para o comércio. Eu sinto isso como se estivesse na fila, esperando, e estivesse achando que nunca seria transplantado – declara.