O Globo

Em quatro anos, cai número de adolescentes de 16 e 17 anos que tiraram título de eleitor

Desilusão com a política é uma das razões apontadas por jovens de 16 e 17 anos que optaram por não votar nas próximas eleições. Na cidade do Rio, neste ano, o TRE contabiliza apenas 27,4 mil jovens dessa faixa etária com título de eleitor, contra 42,9 mil em 2004.

Pedro Zettel, 16 anos, tem poucos colegas com quem trocar idéia sobre candidatos a prefeito. Ele é um dos raros alunos em sua escola que tirou título de eleitor antes de fazer 18 anos, o que, infelizmente, reflete a realidade na cidade do Rio e também no país. As eleições municipais de outubro marcam os 20 anos desde que brasileiros de 16 e 17 anos ganharam o direito ao voto. Mas vai faltar fôlego para apagar velinhas. Desde 2004, o número de eleitores nessa faixa etária, cujo voto é facultativo, cai vertiginosamente.

- Não quero sujar as mãos. Depois que é eleito, o político só faz besteira, e o povo se culpa por ter votado nele. Como posso escolher, vou tirar meu título quando for obrigado (aos 18) - justifica João Gabriel de Souza, de 17 anos.

No Rio, o número de menores de idade eleitores diminuiu de 42,9 mil, em 2004, para 27,4 mil, este ano, segundo dados do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ). A queda na cidade - de aproximadamente 35% - é pior do que a média brasileira. Há quatro anos, havia no país 3,6 milhões de eleitores de 16 e 17 anos. Em 2008, até maio (quando terminou o prazo de inscrições para a próxima eleição), o número chegou a 2,9 milhões, redução de 19%. No mesmo período, o eleitorado geral brasileiro subiu de 121 milhões para 130,6 milhões.

- Eu me esqueci de tirar o título. Como não é obrigatório, não me preocupo. E, como todo político decepciona, a gente perde motivação - opina Maria Eduarda Gazal, 16 anos. - Não sou alienada, mas estamos desestimulados. As escolas também deveriam discutir mais o assunto.

As opiniões de João Gabriel e Maria Eduarda corroboram a tese da cientista política Lúcia Hippólito. Na visão dela, a sucessão de escândalos desde 2004 (mensalão, sanguessugas, corrupção descontrolada no Congresso...) contribuiu para o desinteresse dos mais novos.

- A adesão dos adolescentes já vinha caindo, mas a queda mais expressiva foi desde 2004. E todos esses escândalos são os grandes culpados. A população inteira está desiludida, e o desinteresse se reflete nos jovens - analisa a especialista.

A juíza Jacqueline Montenegro, corregedora regional eleitoral, diz não haver pesquisas a respeito, mas vê razões para tanta falta de envolvimento. Entre elas, a descrença e o "mito do mesário".

- Todo mundo acredita na lenda de que acabará chamado para ser mesário só porque tirou o título - diz. - A desilusão política é outro ponto. Os jovens não crêem que haja gente de bem em quem votar.

Jacqueline conta que quase precisou "arrastar" o filho, agora com 18 anos, para fazer seu título aos 16. Mas não houve quem carregasse os namorados Eduardo Silbert e Paola Garcia, de 17.

- Queria tirar o título, mas não tive tempo e fiquei com preguiça. Além disso, falta informação. Não leio jornal. Nem sei o que faz um vereador. Quase ninguém sabe onde fica o TRE do Jardim Botânico, por exemplo. É um esconderijo - diz Eduardo.

André Carvalho, também de 17, reconhece a falta de envolvimento:

- Nunca me preocupei com política o bastante para dizer se tenho fé nos políticos.

Encontrar eleitores num colégio é tarefa dura. Pedro Zettel, que estuda no Andrews, é um deles. Tirou o título 15 dias depois de fazer 16 anos. Desde pequeno, o estudante acompanha seus pais às urnas, nas eleições:

- As pessoas banalizam a política, não querem nem conversar. Alguns dizem que é difícil tirar o título. Mas é tranqüilo, nem demora.

Colega de colégio de Pedro, Daniel Cohen, de 17 anos, também vai votar. Na opinião dele, os outros estudantes não se interessam porque a política não os afeta:

- A política não afeta diretamente os jovens de classe média alta. Mas ainda vejo eleições como época de esperança, mesmo depois de tantas decepções. Mas, na escola, fico isolado quando o assunto é esse.

" />

Decepção com a política ou alienação?

Publicado: 5/08/2008 | 10:39


O Globo

Em quatro anos, cai número de adolescentes de 16 e 17 anos que tiraram título de eleitor

Desilusão com a política é uma das razões apontadas por jovens de 16 e 17 anos que optaram por não votar nas próximas eleições. Na cidade do Rio, neste ano, o TRE contabiliza apenas 27,4 mil jovens dessa faixa etária com título de eleitor, contra 42,9 mil em 2004.

Pedro Zettel, 16 anos, tem poucos colegas com quem trocar idéia sobre candidatos a prefeito. Ele é um dos raros alunos em sua escola que tirou título de eleitor antes de fazer 18 anos, o que, infelizmente, reflete a realidade na cidade do Rio e também no país. As eleições municipais de outubro marcam os 20 anos desde que brasileiros de 16 e 17 anos ganharam o direito ao voto. Mas vai faltar fôlego para apagar velinhas. Desde 2004, o número de eleitores nessa faixa etária, cujo voto é facultativo, cai vertiginosamente.

- Não quero sujar as mãos. Depois que é eleito, o político só faz besteira, e o povo se culpa por ter votado nele. Como posso escolher, vou tirar meu título quando for obrigado (aos 18) - justifica João Gabriel de Souza, de 17 anos.

No Rio, o número de menores de idade eleitores diminuiu de 42,9 mil, em 2004, para 27,4 mil, este ano, segundo dados do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ). A queda na cidade - de aproximadamente 35% - é pior do que a média brasileira. Há quatro anos, havia no país 3,6 milhões de eleitores de 16 e 17 anos. Em 2008, até maio (quando terminou o prazo de inscrições para a próxima eleição), o número chegou a 2,9 milhões, redução de 19%. No mesmo período, o eleitorado geral brasileiro subiu de 121 milhões para 130,6 milhões.

- Eu me esqueci de tirar o título. Como não é obrigatório, não me preocupo. E, como todo político decepciona, a gente perde motivação - opina Maria Eduarda Gazal, 16 anos. - Não sou alienada, mas estamos desestimulados. As escolas também deveriam discutir mais o assunto.

As opiniões de João Gabriel e Maria Eduarda corroboram a tese da cientista política Lúcia Hippólito. Na visão dela, a sucessão de escândalos desde 2004 (mensalão, sanguessugas, corrupção descontrolada no Congresso...) contribuiu para o desinteresse dos mais novos.

- A adesão dos adolescentes já vinha caindo, mas a queda mais expressiva foi desde 2004. E todos esses escândalos são os grandes culpados. A população inteira está desiludida, e o desinteresse se reflete nos jovens - analisa a especialista.

A juíza Jacqueline Montenegro, corregedora regional eleitoral, diz não haver pesquisas a respeito, mas vê razões para tanta falta de envolvimento. Entre elas, a descrença e o "mito do mesário".

- Todo mundo acredita na lenda de que acabará chamado para ser mesário só porque tirou o título - diz. - A desilusão política é outro ponto. Os jovens não crêem que haja gente de bem em quem votar.

Jacqueline conta que quase precisou "arrastar" o filho, agora com 18 anos, para fazer seu título aos 16. Mas não houve quem carregasse os namorados Eduardo Silbert e Paola Garcia, de 17.

- Queria tirar o título, mas não tive tempo e fiquei com preguiça. Além disso, falta informação. Não leio jornal. Nem sei o que faz um vereador. Quase ninguém sabe onde fica o TRE do Jardim Botânico, por exemplo. É um esconderijo - diz Eduardo.

André Carvalho, também de 17, reconhece a falta de envolvimento:

- Nunca me preocupei com política o bastante para dizer se tenho fé nos políticos.

Encontrar eleitores num colégio é tarefa dura. Pedro Zettel, que estuda no Andrews, é um deles. Tirou o título 15 dias depois de fazer 16 anos. Desde pequeno, o estudante acompanha seus pais às urnas, nas eleições:

- As pessoas banalizam a política, não querem nem conversar. Alguns dizem que é difícil tirar o título. Mas é tranqüilo, nem demora.

Colega de colégio de Pedro, Daniel Cohen, de 17 anos, também vai votar. Na opinião dele, os outros estudantes não se interessam porque a política não os afeta:

- A política não afeta diretamente os jovens de classe média alta. Mas ainda vejo eleições como época de esperança, mesmo depois de tantas decepções. Mas, na escola, fico isolado quando o assunto é esse.