Equipamentos médicos às moscas
| Alana Rizzo, Thiago Herdy, e Patrícia Rennó |
| Correio Braziliense |
CGU revela que, dos 1.331 relatórios de fiscalização, pelo menos R$ 55,1 milhões se perderam nos últimos cinco anos por incompetência ou atos de corrupção de prefeitos
Empacotados em grossas camadas de plástico e papelão, equipamentos médicos comprados com recursos do Ministério da Saúde (mamógrafos, berçários, sondas, raios x, camas, monitores cardíacos, ecógrafos, entre outros) mofam em hospitais, postos de saúde e secretarias de todo o Brasil. Na terceira reportagem sobre a sangria com o dinheiro da saúde, o Correio e o Estado de Minas seguem o rastro de obras e instrumentos que não trouxeram melhorias para a população, seja porque não são usados, desapareceram ou foram comprados em volumes muito maiores do que o necessário.
A análise dos 1.331 relatórios de fiscalização produzidos pela Controladoria-Geral da União (CGU) mostra que pelo menos R$ 55,1 milhões se perderam nos últimos cinco anos, a maioria na Região Norte do país (35%). Em seguida vêm Nordeste (31%) e Sudeste (23,4%). Estão incluídos casos de redes de esgoto concluídas, mas inutilizadas, e compras de ambulâncias sem instrumentos.
Quem passa pela Rodovia RJ-127, no Bairro Guarajuba, em Paracambi, a 76km do Rio, na divisa entre a Baixada e o sul fluminense, observa uma construção pintada de branco, tomada pelo mato e cercada apenas por arame farpado. Uma antiga placa informa que ali, em julho de 2004, foi iniciada a obra de 1,5 mil m², anunciada pelas últimas administrações como o futuro Hospital da Mulher e da Criança, o mais moderno da região.
O Ministério da Saúde já enterrou naquele terreno, desde então, R$ 1,2 milhão. A Prefeitura de Paracambi diz que aguarda os R$ 300 mil restantes para concluir a parte física da maternidade. “A gente espera a liberação entre 30 e 40 dias”, informou o secretário municipal de Saúde, Ricardo Xavier, há quatro meses no cargo, para quem as turbulências políticas locais atrapalharam a continuidade do projeto. No mesmo ano em que a obra começou, o prefeito Flávio Campos Ferreira (PL) foi cassado, acusado de compra de votos. Assumiu André Ceciliano (PT), que, em dois mandatos, somou acusações. Em 2006, foi investigado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) por movimentação atípica durante as negociações para a compra de um dossiê por petistas contra tucanos. Também foi citado nas investigações das CPIs do Banestado e dos Sanguessugas. Sem poder partir para um terceiro mandato, tenta agora tornar-se prefeito da vizinha Japeri.
Candidatos
A maternidade é uma das principais promessas dos candidatos na campanha deste ano. Enquanto isso, equipamentos caros, como 10 UTIs neonatais, avaliadas em mais de R$ 1 milhão, além de berço aquecido, incubadora, mesa de parto e mesa cirúrgica, estão encaixotados há mais de um ano no almoxarifado da prefeitura.
O pior é que, mesmo que a maternidade já estivesse pronta e os equipamentos fossem instalados, não seria possível atender por falta de pessoal. Quatro anos depois do início das obras, a Prefeitura de Paracambi concluiu agora que não tem como arcar com a administração de um hospital desse porte. Informa já ter pesados encargos com o único hospital do município, o Adalberto das Graças, que faz 10 mil atendimentos mensais, sendo 2,8 mil de pessoas vindas dos municípios vizinhos de Japeri, Itaguaí, Queimados e Seropédica. “Estamos aguardando o estudo de um projeto que enviamos para que o governo do estado assuma o funcionamento da maternidade, inclusive com a mão-de-obra”, explica o secretário Ricardo Xavier. “É uma obra essencial, mas não temos como assumir isso hoje”, completa.
Para isso, claro, a maternidade precisa ficar pronta.
Mesmo com dor, tive que voltar e pegar a assinatura do médico e retornei ao hospital para marcar o raios x para 22 de outubro. É humilhação
Jairo de Souza, de 57 anos, pedreiro e morador da cidade de Machado (MG)
O aparelho não funciona
Aparelhos para exames emergenciais parados e atendimento médico deficiente. Esses são problemas que moradores do sul de Minas enfrentam diariamente. Os indícios da má aplicação dos recursos federais estão comprovados nos relatórios da Controladoria-Geral da União (CGU).
Um exemplo é o município de Machado, a 380km de Belo Horizonte. A CGU identificou problemas principalmente ligados a um aparelho de raios x e uma processadora automática para revelação de filmes de raios x, que desde 2005 estão parados na Policlínica Central. A máquina está embalada desde quando foi adquirida por R$ 86,4 mil, sendo R$ 72 mil da União e R$14,4 mil do município.
A cidade de 34,7 mil habitantes tem apenas um equipamento que funciona na Santa Casa. Os procedimentos de raios x estão sendo marcados para outubro, e, em casos de emergência, a pessoa precisa esperar horas para ser atendida. Outro agravante é que a instituição recebe pacientes de cidades vizinhas.
Depois de várias tentativas para marcar consulta na Policlínica, por causa das dores constantes nas pernas, o pedreiro Jairo de Souza, de 57 anos, conseguiu uma consulta com um ortopedista. Foram quase quatro meses de espera. Apesar da demora, outro problema estava por vir: “Fui atendido na Policlínica e voltei ao hospital para buscar a guia de atendimento. Mesmo com dor, tive que voltar e pegar a assinatura do médico e retornei ao hospital para marcar o raios x para 22 de outubro. É humilhação. A situação da saúde na cidade está cada vez pior”, afirmou. A prefeitura alega que, apesar de ter comprado o equipamento, não tem dinheiro para instalá-lo.
