Candidatos mortos em campanha
| EDSON LUIZ |
| Correio Braziliense |
Assassinatos de políticos, às vésperas das eleições municipais, colocam autoridades do país em alerta máximo. Até agora, houve 20 homicídios. A maior parte dos crimes ocorreu no Nordeste
A menos de uma semana das eleições municipais, a violência em algumas regiões do país está assustando as autoridades. Do início das campanhas até a última sexta-feira, 20 candidatos foram assassinados — a maioria no Nordeste, onde o clima é mais tenso. Enfrentamentos diários entre partidários de candidatos diferentes levaram o Ministério Público a pedir o envio de tropas antes do pleito. No Ceará, por exemplo, 5 mil homens das polícias Militar, Civil e Federal foram convocados para levar tranqüilidade a 30 cidades onde não existem delegados ou investigadores.
Nas últimas semanas, quatro pessoas foram assassinadas em Pernambuco, estado recordista na lista de mortes durante a campanha eleitoral. Todos os crimes estavam diretamente ligados às eleições. Foi o caso do candidato a prefeito de Saloá, Fernando Luiz Soares de Melo, morto a tiros na frente do filho de 17 anos. No início do mês, o índio Mozani Araújo de Sá foi morto em frente ao comitê de campanha, em Cabrobó, cidade localizada no chamado Polígono da Maconha.
No último levantamento feito pelo Correio, em 5 de setembro, o número de mortos era de oito. Porém, 20 dias depois, mais 12 pessoas morreram por causa da violência. Nesse caso, apenas dois candidatos assassinados teriam sido vítimas de latrocínio (roubo seguido de morte). O policial civil Pedro Marcelo de Oliveira Lima foi supostamente morto por um assaltante em Porto Velho (RO), onde ele concorria a uma vaga de vereador pelo PRB. Oscar Abreu Alencar (PT do B) também teria sido vítima de ladrões no Paraguai, onde estava fazendo compras.
Na semana passada, os ministérios públicos no Ceará e Sergipe decidiram pedir antecipadamente o envio de tropas para vários municípios. Antes isso era feito apenas no dia das eleições, mas o problema está ficando sério por não haver policiais em algumas cidades, explicou a procuradora da República em Fortaleza, Nilce Cunha Rodrigues. Segundo ela, apesar de não terem sido registradas mortes no estado, há relatos de agressões entre partidários de candidatos no interior cearense. Há muita intranqüilidade, disse a procuradora.
Em Icó, a 450 km de Fortaleza, cenas inusitadas preocuparam policiais que foram enviados para o município. Pessoas vestidas com roupas ninja atacam adversários políticos no meio da rua. Já enviamos a Polícia Federal para o local. Não há tranqüilidade à noite, explicou Nilce. Segundo ela, em outras cidades o problema é semelhante, com agressões mútuas entre candidatos. Em Uruburetama, partidários se enfrentaram com paus e pedras após a realização de um comício. Em Iguatu houve tiroteios e em Fortim um candidato sofreu um atentado.
Além de Pernambuco, com quatro mortes, o Rio de Janeiro teve três assassinatos de candidatos durante a campanha eleitoral. Paraíba, Goiás, São Paulo e Pará tiveram duas mortes cada. Em Rondônia, no Rio Grande do Sul e no Piauí houve três mortes, uma em cada estado. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não tem uma lista oficial com o número de assassinatos, o que dificulta comparativos com anos anteriores. O TSE contabiliza apenas o número de candidatos que já morreram (106 até o dia 25 de setembro), mas sem especificar o motivo da morte. Nas eleições de 2004, 159 candidatos morreram, também de acordo com o tribunal. Para reforçar a segurança nas eleições, o TSE já autorizou o envio das Forças Armadas para 122 municípios em cinco estados. Em 2004, foram enviadas tropas para 306 municípios em 10 estados.
O número
SEGURANÇA
122
número de municípios
com reforço de tropas
este ano
O número
ELEIÇÕES
306
total de cidades em que
as Forças Armadas atuaram
em 2004
Lista macabra
Paraíba
Curral Velho candidato a vice-prefeito Silvino Pereira Gato (PMDB)
Mari candidato a vereador Antônio Santana da Silva (PSL)
Pernambuco
Cabrobó candidato a vereador índio Mozani Araújo de Sá (PT)
Itaquitinga candidato a prefeito Sérgio Ricardo de Souza (PSB)
Camutanga candidato a vereador Leonardo Alves Marinho(PSDB)
Saloá candidato a vereador Fernando Luiz Soares de Melo(PR)
Piauí
Teresina candidato a vereador Lourinaldo Felix Vieira (PTB)
Pará
Uruará candidato a vereador Jorge Coelho (PP)
Rio Maria candidato a prefeito Argemiro Gomes da Silva (PMDB)
Goiás
Águas Lindas candidato a vereador José Venceslau da Costa (PP)
Niquelândia candidato a vereador Nereir Magalhães (PP)
Mato Grosso do Sul
Bela Vista vereador e candidato à reeleição Flávio Roberto Godoy (PDT)
Mato Grosso
Barra do Garças candidato a prefeito Evânio Paulinio Feitosa (PR)
São Paulo
Caraguatatuba candidato a vereador Cosme Tavares Leite (PDT)
São Paulo candidato a vereador Oscar Abreu Alencar (PT do B),
morto quando fazia compras no Paraguai
Rio de Janeiro
Mesquita candidato a vereador Gilson Gonçalves de Carvalho (PSDB)
Nova Iguaçu candidato a vereador Antonio Carlos Souza Silva (PP)
Magé candidato a vereador Orney Santos Pereira (PP)
Rondônia
Porto Velho candidato a vereador Pedro Marcelo de Oliveira Lima (PRB)
Rio Grande do Sul
Novo Hamburgo candidato a vereador Gilvan Roberto Fontoura (PP)
Lula ataca adversários
Entusiasmado com a possibilidade de o PT voltar a ter a maioria dos prefeitos nas sete cidades do ABC paulista, berço do partido, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva bateu duro nos adversários ontem, em São Bernardo do Campo, durante comício do candidato a prefeito, o ex-ministro do Trabalho e da Previdência Social Luiz Marinho, e anunciou no palanque a disposição de adequar sua agenda para "fazer um almoço, no sábado (véspera do primeiro turno), com todos os candidatos (petistas) a prefeito da região".
O PT elegeu cinco dos sete prefeitos do ABC em 2000, quando Lula ainda não era presidente, mas já na "era Lula", em 2004, elegeu apenas dois (Santo André e Diadema). Todas as pesquisas de intenção de voto feitas até agora apontam candidatos petistas à frente nas corridas eleitorais em Santo André (Vanderlei Siraque), São Bernardo (Luiz Marinho), Diadema (Mário Reali) e Mauá (Oswaldo Dias). O PT só não tem chances de vencer em São Caetano do Sul, onde o atual prefeito, José Auricchio Júnior (PTB), aparece muito à frente dos concorrentes (72%, segundo o Ibope). O partido também vai mal em Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, onde, respectivamente, também os atuais prefeitos, Clóvis Volpi (PV) e Adler Kiko Teixeira (PSDB), lideram com folga. Nessas três cidades não há segundo turno porque elas têm menos de 200 mil eleitores.
"Temos de matar no primeiro turno", bradou Lula, no palanque, ontem, em São Bernardo, ao lembrar aos militantes que "faltam três ou quatro pontos" para Luiz Marinho ter 50% mais um dos votos válidos. E o presidente não poupou o prefeito William Dib (PSB), que apóia o candidato do PSDB, deputado estadual Orlando Morando. "Essa cidade poderia estar muito melhor se o prefeito tivesse dignidade de não olhar os partidos. Quando fizemos o PAC, chamei os 27 governadores, de todos os partidos, e os prefeitos das regiões metropolitanas. O daqui não foi. O daqui não apresentou projeto, e sem projeto não tem verba. Quando eu queria fazer a universidade federal aqui, ele quis dar um terreno lá na Tibiriçá (estrada Índio Tibiriçá), mas lá tem muita neblina e eu disse que ia ter muitos acidentes com os estudantes. Então ele disse que tinha um terreno no centro, mas precisava vender, e a Caixa veio e comprou”, disse o presidente. Lula também colocou em xeque a idoneidade do candidato tucano, Orlando Morando, mesmo sem citar nomes. No sábado, o presidente participou de três comícios de candidatos do PT às prefeituras de São José dos Campos, Guarulhos e Osasco.
