Aos poucos, ofertas públicas voltam a atrair investidores ao Brasil
Com uma sequência de quatro ofertas públicas de ações distribuídas do fim de junho para cá e R$ 13,7 bilhões vendidos no ano, o mercado de capitais brasileiro pode se considerar oficialmente reaberto para as empresas em busca de recursos para investimentos ou mesmo para os seus sócios.
Mas nem tudo são flores neste mundo pós-colapso de crédito nas economias centrais e em plena recessão.
O capital externo, que comprava tudo e a qualquer preço nos anos da bonança, agora mostra-se bem mais comedido.
E a pessoa física, ainda escaldada com os reveses da bolsa a partir da quebra do Lehman Brothers , em setembro, também.
A Hypermarcas vendeu R$ 690 milhões em ações e ainda pode elevar a sua oferta a R$ 793,5 milhões caso seja exercida a cláusula de "green shoe", com a colocação dos lotes extras.
As ações saíram a R$ 23 com desconto de 2% sobre a cotação na Bovespa.
Os estrangeiros teriam ficado com 60% dos papéis.
Na oferta da MRV o desconto também foi de 2% e o capital externo levou 70% das ações colocadas à venda - de um total equivalente a R$ 722,1 milhões -, em linha com a movimentação (73%) obtida na oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) realizada em julho de 2007 e que na época contemplou uma captação de R$ 884 milhões.
É o mesmo capital que aparentemente torceu o nariz para a nova operação da Gafisa, que acabou cancelando nesta semana os seus planos de voltar ao mercado.
"É uma companhia que, apesar da Tenda, não está no segmento de baixa renda diretamente e encontrou um pouco mais de dificuldade para aceitar um deságio (desconto) maior para os seus papéis", pondera o analista Jayme Alves, da Spinelli Corretora.
Para o especialista, o mercado foi reaberto, mas só para empresas que tenham histórias sólidas de crescimento, com a atividade em setores menos afetados pela crise e que estejam vivenciando um bom momento, como é o caso da construção.
"O mercado está voltando à normalidade, mas é outro quadro, não mais o cenário de 2006/2007, quando os múltiplos eram exagerados e havia a percepção de crescimento acelerado de lucros".
E não só no Brasil a situação começa a se desanuviar, como também em outros emergentes.
Ele menciona o IPO planejado pela China State Construction Engineering Corporation, que pretende captar o equivalente a US$ 7,6 bilhões, superando a colocação da VisaNet no Brasil, de US$ 4,2 bilhões, ou R$ 8,4 bilhões.
Apesar do volume captado, a participação do estrangeiro na operação da processadora de cartões da bandeira Visa no Brasil ficou em 56,5%, aquém das estimativas do mercado, que chegou a cogitar que o capital externo levaria ao menos 80%.
"De abril a junho, os estrangeiros compraram a bolsa brasileira de "A" a "Z" e seria mesmo de se imaginar que num mundo ainda em crise esse dinheiro não entraria "ad eternum", agora tudo tem sido avaliado com parcimônia", diz Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Way Investimentos e chefe da divisão de Relações Internacionais da ESPM-RJ.
O balanço que o especialista faz da safra atual de ofertas é que a fila para novas captações começou a andar. Por ora, setores favorecidos pelas medidas anticíclicas do Governo, caso da construção civil, ou que sejam notadamente voltados para a economia local é que têm sido favorecidos.
A MRV, por exemplo, surfou na onda do programa habitacional "Minha Casa, Minha Vida". Mesmo antes da oferta concluída, as ações da construtora registravam valorização expressiva e acumulam neste ano ganhos de mais de 200% - em 2008 perderam, entretanto, 74%.
A operação da Light é outro exemplo de exposição ao mercado doméstico e que ainda tem apelo defensivo, acrescenta Espírito Santo. "O setor elétrico, na hora da dor de barriga, consegue se segurar e se trata de uma companhia tradicional, é o que vamos ver daqui para frente".
Na sua percepção, isso quer dizer que os investidores serão mais receptivos a histórias já conhecidas do que a casos novos. "O mercado está reabrindo num momento adequado, passou o pior, mas a crise não acabou, ainda vamos presenciar momentos de incerteza".
Para ele, não dá para deixar de comemorar o resultado das ofertas correntes, mas o investidor tardará a ver casos de valorizações na casa dos 30%, 40% logo no primeiro pregão, o que estimulou no passado a atuação dos "flippers" - investidores com perfil de curtíssimo prazo, que vendiam já na largada.
O fato de a VisaNet deixar parcela considerável das ações nas mãos das pessoas físicas e institucionais locais dá certa estabilidade para os papéis, acrescenta o diretor do Geração Futuro Banco de Investimentos, Wagner Salaverry.
Desde o IPO, concretizado no fim de junho, as ações da companhia acumulam valorização de 21,3%. Alves, da Spinelli, pondera que a menor participação do capital externo pode ter sido uma decisão de alocação.
A oferta da Light rendeu R$ 707,29 milhões ao BNDESPar e à francesa EDF, que vendeu os 6,6% que ainda detinha no capital da distribuidora fluminense.
Do total arrecadado, R$ 321,4 milhões vão para o caixa da EDF e o restante para o BNDES.
A demanda foi quase três vezes superior à oferta, mas 76% dos papéis ficaram com o mercado brasileiro. Do total colocado, 20% foram para o investidor de varejo, o que demonstraria uma associação do público com a marca da Light.
Com a oferta, o "free float" (capital em circulação) da concessionária do Rio vai para 22%. Na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) foi registrada a venda de 32.170.480 ações por R$ 24 cada papel, o que equivale a R$ 772,09 milhões.
Isso significa que pode haver exercício parcial dos lotes extras. Se isso ocorrer, o "free float" aumentará para 24%.
A EDF vendeu o controle da Light em 2006 para um consórcio nacional liderado pela Cemig e Andrade Gutierrez por US$ 319,8 milhões.
Desde então a francesa já recebeu R$ 103,3 milhões em dividendos, que acrescidos dos R$ 321,4 milhões arrecadados com a venda dos 6,6% restantes totalizam R$ 424,7 milhões.
A Light também encerrou ontem uma captação de R$ 300 milhões em debêntures. De uma oferta inicial de R$ 250 milhões, a demanda teria superado o R$ 1 bilhão. (Fonte: Valor Econômico)
