O cenário traçado pelo Copom indica uma recuperação lenta, segura e gradual e os juros não se moverão até que exista segurança de que a economia realmente se comportará desta forma

 

O Comitê de Política Monetária do Banco Central deu uma pausa, que se prevê longa, no ciclo de redução dos juros, ao determinar a redução de meio ponto percentual em sua reunião de julho.

 

Com a Selic a 8,75%, a mais baixa em termos nominais em décadas, o BC cortou desde janeiro cinco pontos percentuais da taxa básica.

Na ata do Copom não há nenhuma palavra que descarte novas reduções marginais, embora alguns diretores do BC quisessem interromper a sequência de cortes já na última reunião.

O cenário traçado pelo Copom indica uma recuperação lenta, segura e gradual e os juros não se moverão até que exista segurança de que a economia realmente se comportará desta forma.

Após uma severa e curta retração, que durou dois trimestres, a economia brasileira já voltou a crescer e, embora a expectativa para o curto prazo indique uma pequena queda do PIB no ano, para 2010 boa parte das estimativas aponta para uma expansão de 3% a 4% - uma boa performance se considerada a previsão de baixo crescimento dos países desenvolvidos para o período.

Os preços estão bem comportados, mas as expectativas do mercado quanto à inflação começaram a se elevar, apesar de estarem dentro da meta para 2009 e 2010. A tranquilidade no front inflacionário só é quebrada pelo preço de serviços, cuja evolução nos 12 meses encerrados em junho foi de 7,21%, ante 6,99% em dezembro.

Os preços administrados sofrerão reajuste de 4,5%, na projeção do Copom, enquanto que os preços livres, tanto os transacionáveis como os não transacionáveis, estão em desaceleração.

Além da resistência natural à queda dos serviços, seus preços encontram alguma sustentação na manutenção, em magnitude inferior à de 2008, dos ganhos do rendimento médio real e da massa salarial - 3% e 3,3% respectivamente, em maio, ante o mesmo mês do ano anterior.

Apesar disso, o BC acredita que o "comportamento da demanda doméstica deve exercer menos pressão sobre os preços dos serviços nos próximos trimestres".

Há vários fatores que dão tranquilidade à autoridade monetária sobre a inflação. A crise internacional continua exercendo efeito predominantemente baixista sobre os bens adquiridos pelo país.

Além disso, a utilização da capacidade instalada de produção sofreu um forte baque e recuou para menos de 80% (79,4%, segundo dados da CNI mencionados na ata), o que traz menor pressão sobre os preços. Para o Copom, a ociosidade da indústria, no entanto, "não deve ser eliminada rapidamente".

Em tese, isto abre a possibilidade de estímulo adicional via política monetária caso a recuperação seja claudicante demais, mas o BC não menciona a possibilidade por querer averiguar os efeitos dos cortes já realizados, que demoram para ser plenamente sentidos pela economia.

A recuperação deve ser agora mais lenta por vários motivos. Embora os mercados de crédito doméstico tenham voltado a operar quase normalmente, a demanda será bastante inferior aos 30% dos últimos anos.

O comércio internacional sofreu um violento golpe e os principais mercados compradores, como Estados Unidos, União Europeia e Japão, por exemplo, estão em recessão e, ao que tudo indica, vão readquirir fôlego muito lentamente.

As exportações brasileiras estão tendo bom desempenho, puxadas pelas commodities, com menor estímulo externo para a indústria de manufaturados, que tem maior poder de irradiação sobre o emprego e o nível de atividade.

E enquanto a economia não voltar a um ritmo compatível com seu potencial, as empresas serão menos generosas do que foram no passado recente com as reivindicações salariais.

E, diante de uma situação ainda cercada por incertezas, o consumidor está hoje mais endividado do que nas retrações anteriores e a cautela nas compras tende a ser uma atitude predominante. A diferença positiva, porém, é que houve finalmente um significativo desafogo com a queda de juros - no caso do Brasil, uma das mais poderosas ações contracíclicas.

Se o nível histórico dos juros for suficiente para destravar boa parte dos investimentos, que se contraíram à espera de tempos melhores, a recuperação econômica poderá ser mais rápida e saudável do que prevê um agora otimista Copom. (Fonte: Valor Econômico, editorial de hoje)

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Banco Central interrompe ciclo de baixa da taxa de juros

Publicado: 5/08/2009 | 11:00


O cenário traçado pelo Copom indica uma recuperação lenta, segura e gradual e os juros não se moverão até que exista segurança de que a economia realmente se comportará desta forma

 

O Comitê de Política Monetária do Banco Central deu uma pausa, que se prevê longa, no ciclo de redução dos juros, ao determinar a redução de meio ponto percentual em sua reunião de julho.

 

Com a Selic a 8,75%, a mais baixa em termos nominais em décadas, o BC cortou desde janeiro cinco pontos percentuais da taxa básica.

Na ata do Copom não há nenhuma palavra que descarte novas reduções marginais, embora alguns diretores do BC quisessem interromper a sequência de cortes já na última reunião.

O cenário traçado pelo Copom indica uma recuperação lenta, segura e gradual e os juros não se moverão até que exista segurança de que a economia realmente se comportará desta forma.

Após uma severa e curta retração, que durou dois trimestres, a economia brasileira já voltou a crescer e, embora a expectativa para o curto prazo indique uma pequena queda do PIB no ano, para 2010 boa parte das estimativas aponta para uma expansão de 3% a 4% - uma boa performance se considerada a previsão de baixo crescimento dos países desenvolvidos para o período.

Os preços estão bem comportados, mas as expectativas do mercado quanto à inflação começaram a se elevar, apesar de estarem dentro da meta para 2009 e 2010.

A tranquilidade no front inflacionário só é quebrada pelo preço de serviços, cuja evolução nos 12 meses encerrados em junho foi de 7,21%, ante 6,99% em dezembro.

Os preços administrados sofrerão reajuste de 4,5%, na projeção do Copom, enquanto que os preços livres, tanto os transacionáveis como os não transacionáveis, estão em desaceleração.

Além da resistência natural à queda dos serviços, seus preços encontram alguma sustentação na manutenção, em magnitude inferior à de 2008, dos ganhos do rendimento médio real e da massa salarial - 3% e 3,3% respectivamente, em maio, ante o mesmo mês do ano anterior.

Apesar disso, o BC acredita que o "comportamento da demanda doméstica deve exercer menos pressão sobre os preços dos serviços nos próximos trimestres".

Há vários fatores que dão tranquilidade à autoridade monetária sobre a inflação. A crise internacional continua exercendo efeito predominantemente baixista sobre os bens adquiridos pelo país.

Além disso, a utilização da capacidade instalada de produção sofreu um forte baque e recuou para menos de 80% (79,4%, segundo dados da CNI mencionados na ata), o que traz menor pressão sobre os preços. Para o Copom, a ociosidade da indústria, no entanto, "não deve ser eliminada rapidamente".

Em tese, isto abre a possibilidade de estímulo adicional via política monetária caso a recuperação seja claudicante demais, mas o BC não menciona a possibilidade por querer averiguar os efeitos dos cortes já realizados, que demoram para ser plenamente sentidos pela economia.

A recuperação deve ser agora mais lenta por vários motivos. Embora os mercados de crédito doméstico tenham voltado a operar quase normalmente, a demanda será bastante inferior aos 30% dos últimos anos.

O comércio internacional sofreu um violento golpe e os principais mercados compradores, como Estados Unidos, União Europeia e Japão, por exemplo, estão em recessão e, ao que tudo indica, vão readquirir fôlego muito lentamente.

As exportações brasileiras estão tendo bom desempenho, puxadas pelas commodities, com menor estímulo externo para a indústria de manufaturados, que tem maior poder de irradiação sobre o emprego e o nível de atividade.

E enquanto a economia não voltar a um ritmo compatível com seu potencial, as empresas serão menos generosas do que foram no passado recente com as reivindicações salariais.

E, diante de uma situação ainda cercada por incertezas, o consumidor está hoje mais endividado do que nas retrações anteriores e a cautela nas compras tende a ser uma atitude predominante.

A diferença positiva, porém, é que houve finalmente um significativo desafogo com a queda de juros - no caso do Brasil, uma das mais poderosas ações contracíclicas.

Se o nível histórico dos juros for suficiente para destravar boa parte dos investimentos, que se contraíram à espera de tempos melhores, a recuperação econômica poderá ser mais rápida e saudável do que prevê um agora otimista Copom. (Fonte: Valor Econômico, editorial de hoje)