Ele tem a Força
| Tiago Pariz |
| Correio Braziliense |
Paulinho usará central sindical para sensibilizar parlamentares e, assim, se livrar das denúncias no Conselho de Ética. Com a abertura de processo, deputado agora não pode mais renunciar ao mandato
O deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP) vai enfrentar o processo no Conselho de Ética da Câmara contando com a capacidade de mobilização da Força Sindical, a segunda maior entidade de representação de trabalhadores do país, da qual é presidente. Assim, tentará sensibilizar os colegas parlamentares a preservar o mandato e os direitos políticos.
Uma das bases do processo de reversão do atual quadro negativo para Paulinho é a confiança na entidade que tem 1.350 sindicatos filiados e representa 6,5 milhões de trabalhadores. O secretário-geral da Força, João Carlos Gonçalves, o Juruna, disse que a central vai mobilizar sindicatos de base para fazer demonstrações de apoio e de pressão dentro do Congresso Nacional. “Queremos mostrar que quem perde é a classe trabalhadora, porque o Paulinho faz um trabalho fantástico aqui no Congresso”, disse Juruna. A Força Sindical só perde em tamanho para a Central Única dos Trabalhadores (CUT).
O Conselho de Ética instaurou ontem processo por quebra de decoro e nomeou como relator o deputado Paulo Piau (PMDB-MG). Paulinho não pode mais renunciar e terá uma longa jornada para construir a defesa e convencer os colegas que não teve participação ou foi beneficiado por um esquema de desvio de recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “É tudo armação. Achei ótimo que o processo foi instaurado. Vou ter a oportunidade de explicar a perseguição política que estou sofrendo e a oportunidade de me defender”, disse Paulinho.
O deputado do PDT de São Paulo não terá de persuadir apenas a maioria dos integrantes do Conselho de Ética, terá de demonstrar inocência também para o baixo clero, grupo de deputados sem expressão mas determinante em votações que não têm orientação de lideranças, como as de perda de mandato. Famoso por agir para defender os próprios interesses, o baixo clero sentiu-se afrontado pela maneira como Paulinho agiu desde que assumiu o mandato em 2007.
O exemplo é a maneira como o corregedor Inocêncio Oliveira (PR-PE) tornou-se algoz do pedetista. Ex-presidente da Câmara e parlamentar com nove mandatos, ele é visto como referência para os parlamentares de menor expressão. Muitos deles pedem a opinião e a orientação do deputado pernambucano sobre como ter melhor atuação parlamentar. “O sentimento da Casa está muito ruim em relação ao Paulinho. As denúncias são muito fortes e cada dia aparece uma nova acusação na imprensa”, disse um deputado do grupo, que pediu anonimato.
Licença
Não é só na Força que o deputado do PDT confia. Por isso, quer se dedicar integralmente à defesa. Paulinho anunciou que cogita a possibilidade de se licenciar da presidência estadual do partido. A iniciativa é negociada com o ministro do Trabalho e presidente licenciado do PDT, Carlos Lupi. “Dentro do partido não tem nenhuma pressão. Mas eu estou tendo dificuldades, não por causa das denúncias, mas por causa das minhas atividades e responsabilidades com a Força Sindical, e de realizar o trabalho das eleições em São Paulo”, afirmou.
No Conselho de Ética, o processo deve engrenar somente depois do depoimento de Paulinho, que só será tomado após a defesa chegar ao colegiado. O prazo expira na sexta-feira da próxima semana. Para agilizar os trabalhos, o relator Paulo Piau pretende se reunir com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Sousa, e o diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, para pedir informações sobre o esquema que fraudou o BNDES. “Quero ser bastante rápido nesse processo, sem a necessidade de ter os trabalhos prorrogados. Quero inclusive apresentar o relatório antes dos 90 dias”, disse Piau.
E o Conselho terá também mais tranqüilidade de trabalho com sinais de que a briga entre o presidente do colegiado, Sérgio Moraes (PTB-RS), e o corregedor começa a arrefecer. Inocêncio decidiu retirar a representação contra o deputado petebista por sentir-se satisfeito com a instauração do processo.
