Lula pede cautela no apoio de ministros
| Paulo de Tarso Lyra |
| Valor Econômico |
A reunião ministerial marcada para hoje, às 9h30, servirá para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressar aos seus comandados duas preocupações em relação às eleições de outubro: uma de caráter legal e outra de caráter político. Do ponto de vista jurídico, Lula quer evitar ao máximo questionamentos feitos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante as disputas municipais. Do lado político, a idéia é lançar uma diretriz para minimizar traumas entre os aliados depois das disputas municipais.
O primeiro alerta a ser dado é de que os candidatos não poderão subir no palanque em eventos oficiais do Executivo, para não gerar questionamentos judiciais. Por isso, nada de visitar cidades em eventos oficiais e aparecer posando ao lado de candidatos locais, o que pareceria ingerência da máquina pública federal.
Outro cuidado foi correr para que todos os convênios envolvendo obras em municípios - especialmente do PAC Saneamento e Habitação - fossem assinados até o início deste mês. Viagens para vistorias de obras dessa natureza serão temporariamente interrompidas. O foco nos próximos quatro meses serão ações de interesse regional ou fruto de convênios com governos estaduais.
Mas o principal tom do encontro será político. Em um universo tão extenso como é a coalizão governista, Lula quer evitar ao máximo melindres pós-outubro. Em praticamente todos os Estados, inclusive nas capitais, existem diversos candidatos da base disputando a mesma cadeira de prefeito. Em Porto Alegre, por exemplo, a deputada Manuela D"Ávila deve ser candidata pelo PCdoB, enquanto Maria do Rosário já foi confirmada como candidata petista. Em Boa Vista, o líder do PR na Câmara, Luciano Castro, vai tentar derrotar o atual prefeito, Iradilson Sampaio de Souza, filiado ao PSB.
Em Recife, onde o presidente Lula tem uma impressionante avaliação positiva (70%), três candidatos da base disputam o direito de suceder o atual prefeito, João Paulo: o candidato do PT e atual secretário de Planejamento, João da Costa; Luciano Siqueira (PCdoB) e Carlos Eduardo Cadoca (PSC). Em São Paulo, Marta Suplicy (PT) tende a enfrentar Aldo Rebelo (PCdoB). Além disso, o PMDB, que integra a coalizão federal, ficará ao lado de Gilberto Kassab (DEM).
No Rio, o pemedebista Sérgio Cabral Filho, depois de anunciar o apoio ao petista Alessandro Molon, voltou atrás e poderá apoiar o pemedebista Eduardo Paes, gerando uma crise com os petistas fluminenses. A pergunta a ser feita é: como os ministros poderão participar dessa geléia eleitoral sem gerar reclamações para o presidente Lula?
A campanha nem começou e o ministro das Cidades, Márcio Fortes (PP) envolveu-se em um típico caso desses. Ele foi ao Maranhão encontrar-se com o governador Jackson Lago (PDT) e não avisou à líder do governo no Congresso, Roseana Sarney (PMDB). Instalou-se a crise, a senadora ficou amuada e recusou visitas posteriores e insistentes pedidos de desculpas.
Uma orientação clara que deve ser dada na reunião é: os ministros poderão fazer campanha, mas nos Estados em que tiverem domicílio eleitoral. Não há como, por exemplo, proibir o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), de apoiar os candidatos pemedebistas do seu Estado. Mas será sugerido que ele não apareça em palanques de pemedebistas de outros Estados, para não gerar atritos.
Setores do PT pensam diferente e querem que os "ministros de "peso do partido" possam viajar para apoiar candidatos petistas em diversos Estados. A líder do PT no Senado, Ideli Salvatti (SC), acha esta sugestão perigosa. "No mesmo Estado, não há como segurar, até porque, nos finais de semana, os ministros podem ter vida partidária. Mas não é recomendável que eles extrapolem as fronteiras", afirmou ela. Um ministro palaciano chegou a questionar essa tropa de choque eleitoral. "Tudo bem que o Patrus, por exemplo, comanda um dos principais programas do governo, o Bolsa-Família. Ele tem um peso importante em Minas, mas será que consegue votos em outros Estados"? questionou.
O líder do PMDB na Câmara, Henrique Alves (RN), aposta no feeling presidencial para arbitrar essa questão. "É ele quem vai avaliar qual o maior estrago político. Mas eu acho que se os ministros viajarem vão acontecer muitos problemas". Mesmo se isso não acontecer, não está descartada a possibilidade de problemas. Outro auxiliar do presidente voltou a lembrar a atuação de Márcio Fortes. "Ele vai fazer campanha para os candidatos do PP no Rio. Só que ele toca o PAC Saneamento, que é um programa federal. Os candidatos dos demais partidos da base que disputam prefeituras fluminenses ou a da Capital terão todo o direito de se sentir prejudicados", destacou, comprovando o tamanho do problema que deverá ser resolvido hoje.
