Bernardo Mello Franco O Globo

No concurso, prova do idioma tem 15 questões de múltipla escolha; ao candidato, basta acertar apenas uma

Apesar de reconhecer que a falta de conhecimento de inglês representa um risco de acidentes no espaço aéreo brasileiro, a Aeronáutica continua a contratar controladores de vôo sem exigir fluência no idioma. A turma mais recente de operadores, recrutada no ano passado e nomeada em janeiro, foi selecionada num concurso que não incluiu prova oral de inglês, idioma usado na comunicação das torres de controle com pilotos estrangeiros que pousam e decolam nos aeroportos do país. E foi a primeira vez que se exigiu dos candidatos qualquer conhecimento de inglês.

Para obter o emprego, os 60 controladores nomeados este ano foram submetidos apenas a 15 questões de inglês, de múltipla escolha, valendo 25 pontos - um quarto da prova. Segundo o edital 03/2006, que ainda pode ser consultado no site do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), bastava aos candidatos acertar uma dessas 15 perguntas para continuar na disputa. Ou seja: mesmo que chutasse todas as respostas, teria chances mínimas de ser eliminado. Falta de fluência contribuiu para acidentes aéreos

Em relatório enviado em março à Organização Internacional de Aviação Civil (Oaci) e revelado ontem pelo GLOBO, a FAB admitiu que a deficiência dos controladores no idioma contribuiu para dez incidentes aéreos (quase acidentes) entre 2003 e 2007.

Formulada pela Fundação Cesgranrio, a prova de inglês aplicada aos controladores aéreos teve nível inferior ao de muitos vestibulares. Foram exigidos conhecimentos mínimos para compreender dois textos curtos sobre controle aéreo extraídos da internet. Numa questão, foi perguntado se o verbo land (pousar) seria mesmo o antônimo da expressão take off (decolar).

- Como não houve prova oral, os candidatos podem ter sido aprovados sem compreender o idioma. Os controladores precisam ter domínio pleno da língua, até porque os pilotos que trafegam no espaço aéreo brasileiro vêm de países diferentes e têm pronúncias variadas - diz o deputado Otavio Leite (PSDB-RJ), que integrou a CPI do Apagão Aéreo no ano passado.

A Aeronáutica informou ontem que não tem previsão de incluir exame oral de inglês nos próximos concursos para controladores. No plano de "medidas de mitigação do problema", apresentado à Oaci, a FAB apenas se comprometeu a aplicar, nos próximos concursos, uma prova que exija nível intermediário no idioma.

Leite disse que vai apresentar hoje à Mesa da Câmara um requerimento para que a Aeronáutica envie cópia do relatório em que aponta a ligação entre a deficiência em inglês dos controladores e o risco de acidentes aéreos. E pedirá uma audiência pública para cobrar explicações do ministro da Defesa, Nelson Jobim, e do comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito.

" />

Controlador de vôo não faz teste oral de inglês

Publicado: 16/06/2008 | 09:36


Bernardo Mello Franco
O Globo

No concurso, prova do idioma tem 15 questões de múltipla escolha; ao candidato, basta acertar apenas uma

Apesar de reconhecer que a falta de conhecimento de inglês representa um risco de acidentes no espaço aéreo brasileiro, a Aeronáutica continua a contratar controladores de vôo sem exigir fluência no idioma. A turma mais recente de operadores, recrutada no ano passado e nomeada em janeiro, foi selecionada num concurso que não incluiu prova oral de inglês, idioma usado na comunicação das torres de controle com pilotos estrangeiros que pousam e decolam nos aeroportos do país. E foi a primeira vez que se exigiu dos candidatos qualquer conhecimento de inglês.

Para obter o emprego, os 60 controladores nomeados este ano foram submetidos apenas a 15 questões de inglês, de múltipla escolha, valendo 25 pontos - um quarto da prova. Segundo o edital 03/2006, que ainda pode ser consultado no site do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), bastava aos candidatos acertar uma dessas 15 perguntas para continuar na disputa. Ou seja: mesmo que chutasse todas as respostas, teria chances mínimas de ser eliminado.

Falta de fluência contribuiu para acidentes aéreos

Em relatório enviado em março à Organização Internacional de Aviação Civil (Oaci) e revelado ontem pelo GLOBO, a FAB admitiu que a deficiência dos controladores no idioma contribuiu para dez incidentes aéreos (quase acidentes) entre 2003 e 2007.

Formulada pela Fundação Cesgranrio, a prova de inglês aplicada aos controladores aéreos teve nível inferior ao de muitos vestibulares. Foram exigidos conhecimentos mínimos para compreender dois textos curtos sobre controle aéreo extraídos da internet. Numa questão, foi perguntado se o verbo land (pousar) seria mesmo o antônimo da expressão take off (decolar).

- Como não houve prova oral, os candidatos podem ter sido aprovados sem compreender o idioma. Os controladores precisam ter domínio pleno da língua, até porque os pilotos que trafegam no espaço aéreo brasileiro vêm de países diferentes e têm pronúncias variadas - diz o deputado Otavio Leite (PSDB-RJ), que integrou a CPI do Apagão Aéreo no ano passado.

A Aeronáutica informou ontem que não tem previsão de incluir exame oral de inglês nos próximos concursos para controladores. No plano de "medidas de mitigação do problema", apresentado à Oaci, a FAB apenas se comprometeu a aplicar, nos próximos concursos, uma prova que exija nível intermediário no idioma.

Leite disse que vai apresentar hoje à Mesa da Câmara um requerimento para que a Aeronáutica envie cópia do relatório em que aponta a ligação entre a deficiência em inglês dos controladores e o risco de acidentes aéreos. E pedirá uma audiência pública para cobrar explicações do ministro da Defesa, Nelson Jobim, e do comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito.