Redação sabatina por quatro horas o líder sindical do ABC
Gazeta Mercantil
A emergência de Luiz Inácio da Silva, o Lula, como líder sindical na crista da onda de greves de metalúrgicos no ABC no final dos anos 70 praticamente coincidiu com o lançamento pela Gazeta Mercantil de eleições diretas entre seu público leitor para escolha dos Líderes Empresariais em 1977. E, desde o início, os líderes escolhidos deixaram clara a sua opção pela democracia no marco de uma economia de mercado, com justiça social. Nos dois primeiros anos, a "pole position" ficou com o empresário Claudio Bardella, que cedeu o primeiro lugar ao empresário Antonio Ermírio de Moraes em 1979. Em março daquele ano, Lula, que ainda não incorporara o apelido ao sobrenome, concordou em comparecer à redação da Gazeta Mercantil para dar uma entrevista e veio em companhia de Almir Pazzianotto, então seu advogado. Foi sua primeira grande entrevista do líder sindical à imprensa, uma verdadeira sabatina de quase quatro horas.
Expressando-se com a sua conhecida desenvoltura (Pazzianotto limitou-se a assistir), Lula falou muito em democracia e defendeu a necessidade de ampliar as negociações entre empregados e patrões. No meio empresarial, a entrevista teve intensa repercussão, em geral muito favorável, reforçando a imagem de Lula como porta-voz dos anseios da classe trabalhadora.
A Gazeta Mercantil teve também um papel fundamental na controvérsia sobre a inflação de 1973, que viria a ser uma das bandeiras de Lula em uma fase em que fazia a transição de líder sindical dos metalúrgicos para a líder político em âmbito estadual e depois nacional. Ele denunciava que os trabalhadores em geral tinham incorrido em grandes perdas com a correção dos salários pelos índices oficiais de inflação que não refletiam a realidade. De denúncia passou a uma campanha de mobilização dos trabalhadores com o objetivo de obrigar a reposição do dinheiro que não apareceu nos contracheques.
Uma consulta às séries históricas dos índices de preços é reveladora. Segundo o Índice Geral de Preços (IGP), da Fundação Getúlio Vargas, a inflação em 1973 foi de 15,94%. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Instituto de Pesquisa Econômica (Fipe) da USP indica uma taxa muito próxima (13,97%) para aquele ano. Contudo, o Índice do Custo de Vida (ICV) do Departamento Intersindical de Estudos Econômicos e Sociais (Dieese) acusa uma taxa de 26,68% para 1973.
A campanha podia não passar de uma briga em torno de índices, se o Banco Mundial, em relatório sobre o Brasil, não tivesse mencionado uma taxa de inflação semelhante à do Dieese. Para complicar as coisas, o então ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen fizera um relatório sobre o problema inflacionário com que se deparava o governo Geisel, que assumiu em 1974. Simonsen abriu o jogo, mostrando que, no cálculo oficial da inflação do último ano do governo Médici, foram usados os preços tabelados, em vez de preços de mercado. O aumento do custo de vida em 1973 era mesmo aquele indicado pelo Dieese.
A Gazeta Mercantil, que não deixara de noticiar os dados do Banco Mundial e fizera uma reportagem com base nos cálculos do Dieese, vinha sendo desmentida pelos órgãos do governo. O relatório de Simonsen, que era apenas conhecido por alguns técnicos e jornalistas, mas mantido na gaveta, veio então à luz, praticamente na íntegra, nas páginas da Gazeta Mercantil, tomando as dimensões de um furo. Logo em seguida, o próprio Simonsen, "on the record", confirmou a autoria do relatório, então atribuído a uma alta fonte da área monetária.
Em sua longa carreira até chegar à Presidência da República em 2003, Lula colaborou regularmente com a Gazeta Mercantil com artigos publicados nas páginas de Opinião.
