Inflação começa a corroer salário
| Marcelo Tokarski |
| Correio Braziliense |
Com a economia aquecida, manteve-se o crescimento do número de vagas em maio, reduzindo o desemprego para 7,9%. Preços em alta, porém, tiraram 1% do poder de compra dos trabalhadores
O mercado de trabalho continua em forte ritmo de expansão. A taxa de desemprego medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nas seis principais regiões metropolitanas do país voltou a surpreender e recuou de 8,5% em abril para 7,9% em maio, a segunda menor taxa da história (leia texto abaixo). No entanto, o bom desempenho deixou de se refletir em aumento de renda. Pelo contrário, o rendimento real médio dos trabalhadores encolheu 1% entre abril e maio. Para os analistas, sinal de que a inflação interrompeu de vez os ganhos e passou a corroer o poder de compra das famílias brasileiras.
De acordo com os dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), no mês passado o trabalhador ganhou em média R$ 1.208,20, valor 6,08% abaixo da maior renda já captada pela pesquisa (R$ 1.286,40, em julho de 2002). No mês, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) teve variação positiva de 0,96%, puxado principalmente pela alta no preço dos alimentos. “O fator negativo é a redução no rendimento, que está associada ao repique inflacionário. Isso mostra que, embora não seja uma ameaça à geração de empregos, a inflação afeta diretamente a renda dos trabalhadores”, afirma a pesquisadora do IBGE Adriana Beringuy. “Se esse aumento da inflação permanecer, os salários serão cada vez mais corroídos. A trajetória de recuperação da renda está comprometida”, alerta.
O economista Salomão Quadros, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), acredita que esse fenômeno deve perdurar por alguns meses. Segundo ele, a inflação ainda está em fase de aceleração. “Como a maioria dos trabalhadores tem seus salários corrigidos apenas uma vez por ano, a tendência é que a perda de poder aquisitivo continue pelos próximos meses”, afirma. “Em média, os ganhos reais vinham subindo 3% ao ano. Agora, em 2008, pode nem haver ganho real. Num processo inflacionário, é inevitável uma perda salarial”, adverte.
O aumento nos preços dos alimentos foi sentido pelo engraxate Cícero Silva do Nascimento, 32 anos. Ao longo de um mês, o valor gasto para alimentar ele, a esposa e os seis filhos saltou de R$ 250 para R$ 400. “Tudo está mais caro”, reclama. Para compensar, Cícero reajustou em até dois terços os valores cobrados de seus clientes. “Uma engraxada simples custa R$ 3, e a com tinta, R$ 5. Antes, cobrava R$ 2 e R$ 3”, explica. Com repasse para os preços, o engraxate aumentou em R$ 100 os rendimentos mensais. “É uma ilusão achar que estou ganhando mais, porque tudo ficou mais caro também”, afirma.
Para Salomão Quadros, da FGV, a partir do segundo semestre muitas categorias deverão pressionar por reajustes mais gordos, com o objetivo de repor a inflação. No entanto, o economista adverte para o risco de uma onda de reajustes salariais alimentar ainda mais a inflação, pois o setor produtivo teria que elevar preços para compensar o aumento dos gastos. “Esse não é um fenômeno brasileiro, ocorre no mundo inteiro”, afirma.
Em maio, apenas os trabalhadores com carteira assinada no setor privado conseguiram ganho de renda (0,5%). Os sem carteira tiveram perda de 0,8%, enquanto militares e servidores públicos perderam 1,2% e trabalhadores por conta própria, 1,3%. Entre os setores, tiveram redução na renda média real os trabalhadores do comércio (-1,4%), de serviços (-3,3%), da educação e saúde (-3,2%) e de outros serviços (alojamento, transporte, limpeza urbana e serviços pessoais, com -2,2%). Em compensação, houve ganho de renda na indústria (4,5%), na construção civil (3,6%) e nos serviços domésticos (1,1%).
Na avaliação de César Fukushima, economista-chefe da consultoria Gouvêa de Souza, o refresco para o bolso dos trabalhadores só deverá ocorrer no segundo semestre de 2009. “A massa total de salários (renda média multiplicada pelo total de ocupados) na economia continua crescendo, mas em ritmo bem menor. Em maio, a alta foi de 5,7%. Há um ano, a expansão era de 7,3%”, afirma.
Qualidade melhora
Se a renda média começa a ser corroída pela inflação, a geração de empregos dá de ombros para a ameaça de arrefecimento da economia. Em maio, a taxa de desocupação despencou de 8,5% para 7,9%. É o menor patamar já registrado para o mês desde 2002, quando a pesquisa foi iniciada, e a segunda menor taxa da história, atrás apenas dos 7,4% registrados em dezembro do ano passado — época do ano em que o desemprego costuma atingir seu nível mais baixo. Outro fato inédito: pela primeira vez, a desocupação ficou abaixo dos 8% ainda no primeiro semestre do ano.
Nos últimos 12 meses, a população desempregada nas seis regiões metropolitanas pesquisadas diminuiu 20,5%, caindo para 1,8 milhão de pessoas. No mesmo período, foram criadas 945 mil vagas, um crescimento de 4,6% na população ocupada. Além de empregar mais gente, o mercado também segue melhorando sua qualidade. Em maio, o índice de formalidade (que inclui trabalhadores com carteira nos setores privado e público, militares e servidores estatutários) atingiu o recorde de 54,8%. Nos últimos seis anos, o nível de formalidade subiu 3,3 pontos percentuais.
“O desemprego está caindo devido à criação de vagas por empresas que investem no aumento da produção. Além disso, a maior parte dessas vagas é com carteira”, afirma a pesquisadora Adriana Beringuy, do IBGE. “Uma taxa de 7,9% em maio é bastante interessante. Geralmente, o desemprego só começava a cair a partir de junho”, explica. Há quatro anos, a taxa medida pelo IBGE chegou a bater em 13,1% (em abril de 2004).
A economista Cláudia Oshiro, da consultoria Tendências, se diz surpresa com o vigor do mercado de trabalho. Sua projeção para o mês era de uma taxa de 8,6%. “O que precisamos ver é se a população desocupada vai continuar caindo num ritmo acima de 20%”, ressalta. Para dezembro, a economista estimava uma taxa de desemprego de 6,9%, mas admite que deverá reduzir sua projeção para algo mais próximo de 6%.
O boom de empregos não beneficia apenas quem está fora do mercado. Há dois meses, Hosana Rodrigues Lima, 19 anos, trocou o emprego em uma padaria e o salário de R$ 500 pelo cargo de promotora de cartões em uma grande rede de varejo. Com a mudança, viu sua renda dobrar. “O mercado de trabalho está muito bom, sempre tem vaga. Quem não acha emprego é porque não vai atrás”, afirma. Os economistas do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Indústria (Iedi) ressaltam que o boom “é generalizado em todos os setores da atividade econômica e nas diferentes regiões do país”. (MT)
