Emergentes levam ao G-8 debate sobre fome
| Gilberto Scofield jr. |
| O Globo |
Para países do G-5, crise de alimentos e alta dos preços de energia são tão urgentes quanto o efeito estufa
Os países emergentes do G-5 (Brasil, China, México, Índia e África do Sul) divulgaram ontem um comunicado em que afirmam que a crise dos alimentos, a alta do preço do petróleo e seus impactos sobre a inflação mundial são tão ou mais perigosos que o aquecimento global, sobretudo para os países pobres, cujas populações sofrem mais com o recrudescimento da pobreza e da fome.
A declaração subverteu a ordem da pauta de discussão dos países do G-8 (EUA, Japão, Alemanha, Grã Bretanha, França, Canadá, Itália e Rússia), que haviam eleito o debate das mudanças climáticas como prioritário de sua reunião de cúpula no Japão.
G-5 pede medidas para frear especulação em "commodities"
O G-5 pediu mais recursos dos ricos para o setor agrícola dos países pobres, sugeriu uma ação financeira global contra a especulação nos mercados futuros de alimentos e petróleo e defendeu mais espaço para as grandes nações em desenvolvimento nos processos decisórios, seja através de grupos específicos, como o G-8 ou o G-5, seja através de organismos multilaterais, como Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial (Bird) ou Organização Mundial do Comércio (OMC).
Ao fim de um dia de reuniões, o presidente do México, Felipe Calderón, coordenador dos trabalhos do G-5, disse, ao lado dos líderes emergentes, entre os quais o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que os países ricos precisam fazer mais para garantir a segurança alimentar do planeta. Para o G-5, os ricos deveriam destinar mais recursos para ajudar os países pobres a ampliar sua produção agrícola, a financiar obras de infra-estrutura e mesmo a adquirir insumos afetados pela alta do preço do petróleo, como fertilizantes.
- Nosso maior problema é o aumento nos preços de energia e alimentos - disse ele.
Os emergentes querem uma ação coordenada da comunidade financeira internacional para conter a especulação nos mercados de commodities, que hoje afetam os preços de alimentos e da energia. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, foi enfático.
- Há má gerência do mercado financeiro, que vem transferindo recursos de investimentos para aplicações futuras em commodities. Esta especulação nos preços futuros de alimentos e petróleo está causando distorções, então alguma ação deve ser feita no sentido de se reduzir a especulação - afirmou. - Vamos levar nossas preocupações para reunião de amanhã (hoje) com os países ricos.
Expansão do consumo mundial de alimentos e energia, alterações climáticas, produção de biocombustíveis, políticas protecionistas em mercados desenvolvidos: são várias as hipóteses debatidas pelo mundo sobre onde a origem da disparada dos preços dos alimentos e do petróleo nos últimos três anos. Mas o que quer que se diga a respeito, os países emergentes não querem ser culpados pela crise de alimentos ou de energia por causa de seu acelerado crescimento econômico.
O presidente da China, Hu Jintao, chegou a chamar de irresponsável essa tese:
- Ganhou destaque um argumento, segundo o qual a culpa pelo aumento de preços dos alimentos se deve ao desenvolvimento dos países emergentes. Esta não é uma atitude responsável. As causas para a crise alimentar são variadas e complexas. E a comunidade internacional só poderá manter a segurança alimentar com o aumento de cooperação e a adoção de medidas eficazes.
Lula discutirá com Bush negociações na OMC
Celso Amorim afirmou que o presidente Lula dirá hoje, no encontro entre os países do G-8 e do G-5, que o etanol de cana-de-açúcar brasileiro já é um biocombustível de segunda geração. O governo brasileiro está disposto a aceitar a criação de um selo verde que facilite a penetração do combustível nos protegidos mercados europeu e americano.
Hoje também o presidente Lula terá uma reunião reservada com o presidente dos EUA, George W. Bush, para discutir medidas para destravar as negociações para abertura comercial na Organização Mundial do Comércio (OMC).
