Gazeta Mercantil

Brasil convive há 18 dias com uma greve no serviço de correios. Não é possível, ainda, estabelecer valores exatos dos prejuízos impostos às empresas e às pessoas físicas que precisam desse serviço, que se mantém um monopólio estatal. Vale notar que os funcionários dos Correios não estão solitários em seu movimento grevista, uma vez que estão acompanhados por portuários, petroleiros e até pelos funcionários da Comissão de Valores Mobiliários. Sem contar outras greves que recebem atenção menor da imprensa, mas são igualmente prejudiciais à população brasileira, como a da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com o que a liberação de medicamentos e produtos médicos em portos e aeroportos está prejudicada. É preciso observar que as reivindicações que impulsionam a maioria dessas greves não são salariais. Aliás, como notou o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), uma voz bastante autorizada nesse tema, "mudou o caráter" das reivindicações. Para o instituto, até 2004 predominavam exigências defensivas, como reposição salarial, por exemplo. Desde aquele ano, ganharam espaço as reivindicações "propositivas", as que pedem novas conquistas nas condições existentes, marcadas pela busca de novos direitos, como planos de carreira ou participações nos lucros, por exemplo. Esse é exatamente o perfil de todos os atuais movimentos grevistas. No caso dos portuários, que interromperam atividades em 21 portos do País, a maior reivindicação é o cumprimento da Convenção 137 da organização Internacional do Trabalho (OIT), que garante renda aos trabalhadores avulsos dos portos em função do desemprego estrutural que atingiu a categoria com obrigatório avanço da automatização nas operações de carga e descarga. O uso do trabalhador avulso é vantajoso em épocas determinadas, mas a contratação é muito difícil pela falta de especialização necessária para operar novas tecnologias, como a dos novos guindastes, que demandam capacitação muito específica do operador. O caráter propositivo também está presente na greve dos Correios, que tem como ponto central de exigência o pagamento de um adicional de insalubridade. A Federação Nacional dos Trabalhadores da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos exigiu a discussão de todos os pontos do plano de carreira, considerando insuficiente o pagamento definitivo de gratificação de 30% aos carteiros como pagamento proporcional às horas trabalhadas em serviços externos de coleta e entrega. O caso dos petroleiros é ainda mais exemplar dessas exigências paralelas à questão salarial. Enquanto os petroleiros de Campos reclamam o pagamento, em dias de folga, das horas gastas no período de desembarque nas plataformas, a Federação Única dos Petroleiros (FUP) exige uma maior fatia na participação de lucros e resultados. Para efetivar a união da categoria, a FUP determinou greve de 48 horas em solidariedade às exigências dos trabalhadores da bacia de Campos. Esses movimentos provocam fortes prejuízos às empresas e grandes transtornos para a população, que precisa desses serviços. Indústria e comércio reclamam da inação do Poder Executivo em relação à greve dos funcionários dos Correios. A Associação Comercial de São Paulo prevê problemas de caixa porque os boletos de cobrança simplesmente não chegaram para a quitação das prestações. A Associação Brasileira de Marketing Direto enviou mensagem à presidência da empresa e ao sindicato correspondente exigindo um plano de contingência para evitar o colapso do sistema. Das 330 milhões de correspondências postadas desde o início da greve, mais de um terço não foi entregue. Em São Paulo estão acumuladas 16 milhões de correspondências nos centros de distribuição. Será questão de tempo para que a greve nos portos atinja o esforço exportador. É fato que algumas providências já foram tomadas no âmbito judicial pelos mais prejudicados por essas greves. A Associação Brasileira dos Importadores de Equipamentos, Produtos e Suprimentos Médicos Hospitalares (Abimed) obteve liminar na Justiça Federal de São Paulo para liberação de produtos de saúde presos por conta da greve da Anvisa, iniciada no final de junho, autorizando a liberação das mercadorias nos portos e aeroportos paulistas. No caso dos Correios, o fim do monopólio estatal do serviço postal aguarda decisão do Supremo Tribunal Federal, desde 2003. Já para a liderança do movimento dos portuários, a greve da categoria "é o início de muitos outros movimentos". Se o Executivo permanecer na atual leniência frente a essas greves propositivas, apesar dos aumentos salariais já concedidos, não há dúvida que a previsão da liderança sindical será plenamente confirmada.

" />

Salário não é o principal motivo das atuais greves

Publicado: 18/07/2008 | 09:25


Gazeta Mercantil

Brasil convive há 18 dias com uma greve no serviço de correios. Não é possível, ainda, estabelecer valores exatos dos prejuízos impostos às empresas e às pessoas físicas que precisam desse serviço, que se mantém um monopólio estatal. Vale notar que os funcionários dos Correios não estão solitários em seu movimento grevista, uma vez que estão acompanhados por portuários, petroleiros e até pelos funcionários da Comissão de Valores Mobiliários. Sem contar outras greves que recebem atenção menor da imprensa, mas são igualmente prejudiciais à população brasileira, como a da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com o que a liberação de medicamentos e produtos médicos em portos e aeroportos está prejudicada.
É preciso observar que as reivindicações que impulsionam a maioria dessas greves não são salariais. Aliás, como notou o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), uma voz bastante autorizada nesse tema, "mudou o caráter" das reivindicações. Para o instituto, até 2004 predominavam exigências defensivas, como reposição salarial, por exemplo. Desde aquele ano, ganharam espaço as reivindicações "propositivas", as que pedem novas conquistas nas condições existentes, marcadas pela busca de novos direitos, como planos de carreira ou participações nos lucros, por exemplo.
Esse é exatamente o perfil de todos os atuais movimentos grevistas. No caso dos portuários, que interromperam atividades em 21 portos do País, a maior reivindicação é o cumprimento da Convenção 137 da organização Internacional do Trabalho (OIT), que garante renda aos trabalhadores avulsos dos portos em função do desemprego estrutural que atingiu a categoria com obrigatório avanço da automatização nas operações de carga e descarga. O uso do trabalhador avulso é vantajoso em épocas determinadas, mas a contratação é muito difícil pela falta de especialização necessária para operar novas tecnologias, como a dos novos guindastes, que demandam capacitação muito específica do operador.
O caráter propositivo também está presente na greve dos Correios, que tem como ponto central de exigência o pagamento de um adicional de insalubridade. A Federação Nacional dos Trabalhadores da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos exigiu a discussão de todos os pontos do plano de carreira, considerando insuficiente o pagamento definitivo de gratificação de 30% aos carteiros como pagamento proporcional às horas trabalhadas em serviços externos de coleta e entrega. O caso dos petroleiros é ainda mais exemplar dessas exigências paralelas à questão salarial. Enquanto os petroleiros de Campos reclamam o pagamento, em dias de folga, das horas gastas no período de desembarque nas plataformas, a Federação Única dos Petroleiros (FUP) exige uma maior fatia na participação de lucros e resultados. Para efetivar a união da categoria, a FUP determinou greve de 48 horas em solidariedade às exigências dos trabalhadores da bacia de Campos.
Esses movimentos provocam fortes prejuízos às empresas e grandes transtornos para a população, que precisa desses serviços. Indústria e comércio reclamam da inação do Poder Executivo em relação à greve dos funcionários dos Correios. A Associação Comercial de São Paulo prevê problemas de caixa porque os boletos de cobrança simplesmente não chegaram para a quitação das prestações. A Associação Brasileira de Marketing Direto enviou mensagem à presidência da empresa e ao sindicato correspondente exigindo um plano de contingência para evitar o colapso do sistema. Das 330 milhões de correspondências postadas desde o início da greve, mais de um terço não foi entregue. Em São Paulo estão acumuladas 16 milhões de correspondências nos centros de distribuição. Será questão de tempo para que a greve nos portos atinja o esforço exportador.
É fato que algumas providências já foram tomadas no âmbito judicial pelos mais prejudicados por essas greves. A Associação Brasileira dos Importadores de Equipamentos, Produtos e Suprimentos Médicos Hospitalares (Abimed) obteve liminar na Justiça Federal de São Paulo para liberação de produtos de saúde presos por conta da greve da Anvisa, iniciada no final de junho, autorizando a liberação das mercadorias nos portos e aeroportos paulistas. No caso dos Correios, o fim do monopólio estatal do serviço postal aguarda decisão do Supremo Tribunal Federal, desde 2003. Já para a liderança do movimento dos portuários, a greve da categoria "é o início de muitos outros movimentos". Se o Executivo permanecer na atual leniência frente a essas greves propositivas, apesar dos aumentos salariais já concedidos, não há dúvida que a previsão da liderança sindical será plenamente confirmada.