Depois de descobrir quem vazou gastos do ex-presidente Fernando Henrique, PF aposta em depoimentos de funcionários de confiança da ministra Dilma Rousseff para desvendar por que o dossiê foi divulgado
O indiciamento do ex-secretário de Controle Interno da Presidência da República José Aparecido Nunes Pires por quebra de sigilo funcional encerrou apenas uma questão para a Polícia Federal: como a planilha com informações sigilosas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso saiu da Casa Civil e chegou ao Senado Federal. Agora, a PF tentará descobrir se o vazamento ocorreu por obra do acaso, como alega o servidor, ou na esteira de uma ação orquestrada, destinada a manter sob rédeas governistas a CPI mista dos Cartões. A fim de esclarecer a dúvida, a polícia tomará os depoimentos do primeiro escalão da Casa Civil.
Entre os próximos que serão ouvidos está o secretário de Administração da pasta, Norberto Temóteo. Aparecido diz ter recebido dele a recomendação para ceder dois funcionários que se juntariam a outros encarregados de coletar informações e abastecer o banco de dados do governo sobre suprimento de fundos. Um desses subalternos, Marcelo Veloso, repassou a Aparecido a planilha, conforme descobriu a PF. O delegado Sérgio Menezes, que preside o inquérito do caso, já havia definido a hierarquia funcional como critério para realizar os interrogatórios.
Ele identificou que foram dez os servidores que participaram da pesquisa de dados. Essas pessoas já foram ouvidas. Do primeiro escalão, Aparecido foi o primeiro a ser interrogado. Agora, a PF questionará quem discutiu a criação e regras do trabalho. Participaram das reuniões, além de Aparecido e Temóteo, a secretária-executiva da Casa Civil e braço direito da ministra Dilma Rousseff, Erenice Guerra, a chefe de gabinete de Erenice, Maria de La Soledad Castrillo, e o diretor de Orçamento e Finanças da Casa Civil, Gilton Maltez. Antes de o suposto dossiê ser divulgado, líderes governistas já espalhavam no Congresso Nacional que o governo não “apanharia quieto”.
Aliados davam conta de um “levantamento” que estava em processo na Casa Civil com os gastos do ex-presidente tucano. Resta saber se o vazamento que ocorreu por intermédio do computador de Aparecido tem alguma relação com isso. A versão palaciana é a de que a Presidência se antecipara caso a CPI, em instalação, precisasse dos registros. Em depoimento à PF, na sexta-feira, o ex-secretário disse que se enganou ao enviar o arquivo, negando motivação política.
Os dados chegaram às mãos do assessor parlamentar André Fernandes, que trabalha para o senador Álvaro Dias (PSDB-PR). Nos últimos cinco anos, Dias sempre investigou os gastos com cartões corporativos da gestão petista, com foco principal nas despesas sigilosas realizadas pelo gabinete presidencial. De repente, por meio de Fernandes, teve acesso a dados, só que aos gastos de FHC. O senador nega ter repassado o material adiante.
Controvérsia
Numa tentativa de blindar Dilma Rousseff, o Palácio do Planalto insiste na tese de que as informações que compõem a planilha vazada por José Aparecido caducaram porque já se passaram cinco anos desde que FHC deixou a Presidência. A interpretação tem o aval do ministro da Justiça, Tarso Genro, a quem a Polícia Federal é subordinada. Entre os policiais, no entanto, há um entendimento de que os dados divulgados poderiam expor questões de segurança do atual e de ex-mandatários do país. O indiciamento de Aparecido na última sexta-feira seria um sinal de que essa tese pode prevalecer.
O delegado Sérgio Menezes ainda estuda essa questão. Ao se basear na Lei 10.180, de 2001, para fazer a acusação formal contra Aparecido e indiciá-lo no Código Penal por quebra de sigilo funcional, o policial entendeu que o ex-secretário de Controle Interno não poderia divulgar informações a que teve acesso por causa da função que exercia, no caso a de secretário de Controle Interno. Ou seja, formalmente, ele não entrou ainda no mérito do sigilo das informações.
mistério a esclarecer
1 - Laudo preliminar do Instituto de Tecnologia da Informação (ITI), órgão subordinado à Casa Civil, divulgado há dez dias responsabiliza José Aparecido Nunes Pires, então secretário de Controle Interno da Presidência da República, pelo vazamento do suposto dossiê com gastos realizados em nome do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e da ex-primeira dama Ruth Cardoso.
2 - Na quinta-feira passada, o servidor é exonerado, “a pedido”, do cargo, em decisão publicada no Diário Oficial da União. Um dia depois, presta depoimento à Polícia Federal, que o indicia por violação de sigilo funcional. Aos investigadores, Aparecido alega ter enviado por descuido as informações a André Fernandes, assessor do senador Álvaro Dias (PSDB-PR).
3 - Amanhã, a CPI mista dos Cartões ouvirá Aparecido e Fernandes, a fim de descobrir se o governo está por trás do vazamento do suposto dossiê e, se estiver, por que decidiu forjá-lo. A oposição pressionará o ex-secretário a implicar no caso a secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra. Se conseguir, retomará a artilharia contra a ministra Dilma Rousseff.
4 - Nesta semana, a PF tomará depoimentos de funcionários próximos à ministra em tentativa de também esclarecer a principal dúvida sobre o caso. Um dos primeiros a ser ouvido será o secretário de Administração da Casa Civil, Norberto Temóteo.
Lado a lado no Senado
Indiciado pela Polícia Federal por quebra de sigilo funcional, o ex-secretário José Aparecido Nunes Pires vai manter na CPI mista dos Cartões a versão apresentada ao delegado Sérgio Menezes de que enviou a planilha ao assessor parlamentar André Fernandes por engano. Aparecido presta depoimento amanhã, mesma data marcada pela comissão para o interrogatório do servidor do Senado. A estratégia da oposição é tentar colar o escândalo na secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra.
PSDB e DEM querem provar que partiu dela a ordem para a realização do dossiê. Perguntado pelo delegado Sérgio Menezes se recebeu alguma orientação de Erenice sobre o material, Aparecido respondeu que não. Menezes foi ao Senado na tarde da última sexta-feira. Entregou à senadora Marisa Serrano (PSDB-MS), presidente da CPI, cópias dos depoimentos de Aparecido e Fernandes, conforme decisão da 12ª Vara da Justiça Federal de Brasília. Marisa trancou os documentos no cofre da comissão. Nesta terça-feira, antes dos interrogatórios, ela e os integrantes da CPI se reunirão a portas fechadas para analisar o teor das declarações prestadas por eles.
Após a leitura, terão início os dois depoimentos. A defesa de Aparecido aguarda ainda resultado de um recurso apresentado ao Supremo Tribunal Federal (STF) para que o ex-secretário deponha sob a proteção de um hábeas corpus, que o impediria se sair de lá preso, por exemplo. O ministro Ayres Brito, que negou uma liminar nesse sentido na quinta-feira passada, argumentou que Aparecido tem direito constitucional de ficar calado diante da sua condição de investigado. Marisa Serrano garantiu que direitos constitucionais não serão violados na audiência.
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Marcelo Rocha
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Correio Braziliense
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