| Vicente Nunes |
| Correio Braziliense |
Bancos centrais tentam conter o pânico. Mercado se anima com possível ajuda à seguradora AIG e bolsas sobem
Cinco dos maiores bancos centrais do mundo — Estados Unidos, Japão, União Européia, Inglaterra e Austrália — despejaram ontem US$ 234,7 bilhões nos mercados financeiros numa tentativa desesperada de conter o caos que deixou um rastro de prejuízos, depois da quebra do banco americano Lehman Brothers na segunda-feira. O dinheiro foi usado para socorrer instituições em dificuldades, que viram o caixa secar depois do estouro da bolha imobiliária dos EUA, cujo impacto está longe do fim. No geral, os BCs conseguiram conter a onda de pânico, com alguns mercados, entre eles, o brasileiro, encerrando o dia com pequena alta. Mas de nada adiantará a ação conjunta dos BCs sem uma solução definitiva para a AIG, a maior seguradora americana.
A empresa, com forte atuação no Brasil em sociedade com o Unibanco (leia ao lado), está se esvaindo. Detém US$ 307 bilhões em seguros de créditos podres, os chamados subprimes, estopim da crise iniciada em 2007 e que já levaram para o buraco instituições centenárias como o Lehman Brothers e a Merrill Lynch e empurram a economia global para a recessão. Se a AIG quebrar, um número enorme de bancos, especialmente europeus, vão desabar juntos num efeito dominó cujos resultados ninguém se atreve a prever. As desconfianças são tantas que os preços de suas ações desabaram de US$ 70, em agosto de 2007, para US$ 2,50 ontem — um recuo de 96%.
O mercado se apegou aos fortes rumores de que o Federal Reserve (Fed), o BC dos Estados Unidos, estaria preparando um pacote de US$ 85 bilhões para salvar a AIG, segundo o jornal The New York Times noticiou ontem à noite. A ajuda poderia contar com o apoio de 10 bancos, capitaneados pelo Citibank, pelo Morgan Stanley e pelo Goldman Sachs. Também amenizou a terça-feira o fato de o Fed ter mantido os juros básicos americanos em 2% ao ano. Os mais otimistas viram nessa decisão um sinal de que, ao não ceder às pressões para reduzir a taxa, o banco indicou que não há ajustes mais significativos a serem feitos na economia dos EUA.
Com isso, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que, na véspera, tinha levado um tombo de 7,59%, fechou o pregão nos 49.228 pontos, com alta de 1,68%. Em Nova York, o índice Dow Jones avançou 1,3% e a Nasdad, 1,23%. “Sinceramente, esses resultados não me convenceram. Os mercados subiram em cima de fatos não confirmados e de interpretações de fatos, um claro sinal de debilidade”, disse Vitória Saddi, economista para a América Latina da Consultoria RGE Monitor, dirigida por Nouriel Roubini, o primeiro economista a prever a crise dos subprimes. “O que ocorreu na Bovespa e em Nova York foi um ajuste técnico depois de uma queda exagerada. Tudo indica que os mercados ainda levarão muitos sustos”, acrescentou Alexandre Marques Filho, da Elite Corretora.
Na Europa e na Ásia, onde as bolsas estavam fechadas quando surgiram os rumores sobre a ajuda à AIG, o desastre deu o tom dos negócios. Em Londres, a bolsa cravou perdas de 3,43%. Em Frankfurt, de 1,63%. Em Tóquio, de 4,65%. Em meio à crise, o dólar registrou mais um dia de alta, cotado a R$ 1,824 (+ 0,66%). Já o risco Brasil disparou 10%, para os 340 pontos.
AIG pode ser do Unibanco
O presidente da Unibanco AIG Seguros, José Rudge, afirmou ontem que, caso a American International Group (AIG) precise se desfazer de seus ativos no Brasil, o caminho natural seria a compra dessa parcela pelo banco brasileiro. “Estamos atentos a essa oportunidade e temos o direito de preferência. Seria um caminho natural”, afirmou em teleconferência à imprensa. O banco tem o controle da seguradora, com uma participação de 52%. O restante pertence à AIG, que passa por dificuldades financeiras nos Estados Unidos.
Por essa razão, a Unibanco AIG divulgou um comunicado em que explicava “ser uma companhia independente, com reservas aplicadas apenas no mercado brasileiro, de acordo com regras da Superintendência de Seguros Privados (Susep)”. “Seja qual for o acontecimento, o Unibanco AIG tem vida independente”, disse Rudge, lembrando que da mesma forma que os resultados positivos da AIG nunca tiveram influência na seguradora brasileira, o mesmo ocorre com os resultados negativos. Rudge evitou detalhar os termos do acordo entre Unibanco e AIG, alegando confiabilidade.
No entanto, afirmou que o contrato dá preferência ao Unibanco caso a AIG queira se desfazer de sua participação, ou seja, é obrigada a oferecê-la primeiramente para a financeira brasileira. Isso poderia ocorrer caso a seguradora americana precise vender ativos para levantar os recursos necessários nos EUA para se salvar financeiramente ou venha a entrar em concordata. A Unibanco AIG é líder no mercado de grandes riscos no Brasil e está entre as cinco maiores seguradoras do país. Para Rudge, mesmo que a AIG saia da parceria, a companhia tem condições de continuar nesse mercado. “Temos relação com todos as resseguradoras. O importante é toda a tecnologia que oferecemos para colocar o risco no mercado de forma adequada”, explicou.
LEILÃO DE LEMBRANÇAS
Bonés e canetas com a marca Lehman Brothers foram colocados à venda na internet nesta terça-feira, depois que o banco pediu concordata. Também foram oferecidos nomes de endereços eletrônicos relativos à entidade como, por exemplo, o domínio falloflehman. com (o colapso do Lehman), que chegou a ser cotado em US$ 1.025 em um site de leilões. Cerca de 220 objetos estavam à venda ontem à tarde, de velhos títulos na Bolsa do início do século 20 até bolsas esportivas e garrafas térmicas com o nome do famoso banco de negócios de 158 anos derrubado pela crise. Além de bonés com a marca, foram oferecidas toalhas de praia, calendários e guarda-chuvas. Após o anúncio de concordata, os funcionários do banco foram ao prédio do Lehman em Nova York para retirar seus pertences e, pelo jeito, aproveitaram para levar umas lembrancinhas a mais.