Carlos Braga
Jornal do Brasil

Palco de lutas, PUC recebe candidatos com frieza

Se um militante do movimento estudantil dos anos 60 fosse parar na PUC ontem, por conta de uma dobra no tempo, não acreditaria que estamos em plena campanha eleitoral. A descrença aumentaria se lhe fosse informado que dois candidatos, de pólos opostos no arco político carioca, estavam na univesidade para debater suas propostas com os alunos. Eduardo Paes (PMDB) e Chico Alencar (PSOL) não empolgaram os alunos: nenhum dos dois conseguiu encher a sala. Alessandro Molon (PT), que esteve lá horas antes, também atraiu audiência escassa. Bandeiras e debates acalorados, que beiravam o quebra-pau? Ficaram no século passado. ­ Política me interessa mais ou menos. Nunca participei de grêmio ou de diretórios estudantis. Acho o nível dos candidatos ruim ­ disse, com ar de enfado, o estudante de engenharia Luiz Pádua D"Angelo, 20 anos, que não lembrou de nenhuma proposta que pudesse classificar de ruim. Enquanto os candidatos tentavam ganhar a atenção dos alunos com suas idéias, uma animada festa acontecia na Vila dos Diretórios Acadêmicos, a cerca de 300 metros da sala onde corriam os debates. Um dos mais importantes centros da rebeldia político-cultural dos estudantes das décadas de 60 e 70, a Vila dos Diretórios tinha a agitação embalada não por slogans revolucionários, mas por cervejas e música pop. Perto dali, a estudante de direito Julie Rocha Deccache, 18, estava alheia aos candidatos que visitavam a PUC. Disse que acompanha esporadicamente o que acontece na campanha. Em geral, pelo que os olhos conseguem registrar nas manchetes da internet. Nesta eleição, dará o seu primeiro voto. Ou não, já que mora em Angra dos Reis e ainda não sabe se vai para a cidade natal ou justifica a ausência. Politicamente, se considera de centro. ­ Não gosto de radicalismo. Para mim, radical é tentar romper com o sistema, querer mudar o mundo. Temos que respeitar as leis. Mudar devagar ­ explica a estudante.

Mais segurança

Sua amiga Bruna Hauser, 19, estudante de direito, classifica como grau cinco, numa escala de zero a 10, seu interesse por política. Acha legal a possibilidade de "poder fazer alguma coisa pelo lugar em que se vive". Mas a dificuldade que políticos bem-intencionados encontram para fazê-lo provoca seu desinteresse pela campanha. ­ Queria que o novo prefeito cuidasse da segurança. A coisa está feia ­ sugere. Meio ambiente é o tema de que o estudante de jornalismo Gabriel Portugal sente falta nos debates dos candidatos à prefeitura. Ouviu atento Eduardo Paes falar como vai administrar o Rio no intervalo de suas aulas. Paes é um dos seus possíveis candidatos. Acha que ele fez coisas boas em Jacarepaguá na época em que era subprefeito do bairro, na primeira gestão de Cesar Maia. Mas Gabeira (PV) ainda está no páreo. Diz que sua luta contra a corrupção faz balançar seu voto em direção ao candidato verde. Para vereador, contudo, não faz idéia de quem ganhará a sua chancela. Também não sabe muito bem o que faz um legislador municipal. ­ Acredito que eles fiquem mais com a parte das leis ­ tateia. Se a campanha à prefeitura estava morna nos pilotis da PUC, a de vereador era ignorada. Daniel Cavalcanti, estudante de jornalismo, 20 anos, critica que se vote no candidato à vereança apenas por ele ser conhecido. ­ Lá em Niterói tem um atendente do Bolota, o bar que eu freqüento, que pediu meu voto ­ contou.

15-08-2008 | 11:07
14-08-2008 | 15:44

Aguinaldo Novo
O Globo

Com US$5,5 bilhões no trimestre, estatal perde apenas para Exxon e Chevron. Vale fica em 14º no ranking

O lucro recorde da Petrobras no segundo trimestre, de R$8,783 bilhões - ou US$5,518 bilhões -, garantiu à estatal o terceiro lugar entre as empresas de capital aberto mais lucrativas das Américas, com exceção do Canadá, segundo levantamento da consultoria Economática divulgado ontem. A petrolífera ficou à frente de gigantes como Wal-Mart e Microsoft.

A Petrobras anunciou na segunda-feira lucro 29% superior ao registrado em igual período do ano passado, impulsionado por maiores preços e vendas. Além da cotação mais alta do petróleo, o resultado foi beneficiado pelos reajustes nos preços do diesel e da gasolina, em maio deste ano.

Petrobras quer perfurar 7 poços no pré-sal este ano

Para elaborar o ranking - com 15 companhias -, a Economática converteu os resultados trimestrais para o dólar, considerando a taxa oficial (Ptax) de 30 de junho. Nessa base de comparação, o lucro da Petrobras na moeda americana foi de US$5,518 bilhões, atrás apenas das rivais ExxonMobil, com US$11,68 bilhões, e Chevron, com US$5,975 bilhões.

À gigante da informática Microsoft coube o 7º lugar, com lucro de US$4,297 bilhões entre abril e junho deste ano. E a seguradora Berkshire Hathaway, do magnata Warren Buffett, ficou com a 13ª posição. A Vale veio em seguida, na 14ª posição, com lucro de US$2,873 bilhões. Vale e Petrobras são as únicas empresas brasileiras que aparecem no levantamento. Todas as outras são americanas. A Pfizer, da área química, ficou em 15º lugar.

Alheia às discussões dentro do governo sobre mudanças no marco regulatório do setor, a Petrobras segue com seus planos para explorar a chamada camada pré-sal, que se estende de Santa Catarina ao Espírito Santo. O gerente-geral da unidade de negócios de Exploração e Produção da Bacia de Santos da estatal, José Luiz Marcusso, afirmou ontem em seminário na Federação das Indústrias do estado de São Paulo (Fiesp) que a empresa planeja perfurar sete poços ainda este ano e mais onze em 2009. Entre os primeiros poços a serem explorados estão o de Guará, Taquari, Ilha Bela e Júpiter, onde já foi encontrado gás.

Para atingir o cronograma, a Petrobras espera a chegada de três novas sondas de perfuração em 2009. No total, serão 20 até 2011. Marcusso reafirmou o plano de iniciar já em 2009 os testes em Tupi, cujas reservas estão estimadas entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris de petróleo. Em 2010, está previsto o início de um projeto-piloto, com a produção diária de 100 milhões de barris e de 3 milhões de metros cúbicos de gás.

Durante o mesmo evento na Fiesp, o ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP) Newton Monteiro fez prognósticos positivos para o futuro do pré-sal. Fora os poços que a Petrobras já descobriu, ele estima que poderão ser encontrados outros 140. Ainda segundo sua estimativa, o país estaria sentado sobre 338 bilhões de barris, para um reserva provada hoje de apenas 14 bilhões de barris, o que colocaria o Brasil à frente da Arábia Saudita.

Petróleo: maior queda de demanda desde 1982

O preço do petróleo leve americano caiu 1,26% ontem, para US$113,01. O recuo foi influenciado pela queda na demanda americana pela commodity. De acordo com a Administração de Informação de Energia (EIA, da sigla em inglês), no primeiro semestre de 2008 a demanda por petróleo nos EUA caiu uma média de 800 mil barris diários em comparação ao mesmo período do ano anterior, o maior declínio desde 1982.

13-08-2008 | 11:32

ANDREZA MATAIS
Folha de S. Paulo

Segundo pesquisa da AMB, 78% escolhem candidatos em troca de benefícios

Para a maioria dos eleitores brasileiros, os políticos atuam em causa própria, não em favor da população. Pesquisa da AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros) em parceria com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), divulgada ontem, mostra que 85% dos eleitores crêem que "a política é uma atividade em que os próprios políticos são os principais beneficiados". Só 12% avaliam que as ações são voltadas para o povo.
O levantamento feito pelo instituto Vox Populi mostrou, porém, que 78% dos eleitores escolhem candidato com base nos benefícios que podem receber. A pesquisa foi realizada entre 27 de junho e 6 de julho, com 1.502 entrevistados em todo o país. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais.
A avaliação sobre o que é dever dos políticos demonstra que o eleitor considera prestar favores como uma obrigação. Entre as atribuições dos vereadores, foram citadas ajudar a resolver problemas que as pessoas têm em órgãos públicos (83%) e dar dinheiro a necessitados (59%). Mas também são funções do vereador discutir projetos de lei (94%) e fiscalizar contas da prefeitura (93%).
Sobre o prefeito, 29% disseram que ele tem como obrigação patrocinar festas de formatura. O eleitor também considera dever do prefeito fazer escola e hospital (96%) e prestar conta da verba recebida (94%).
Segundo o presidente da AMB, Mozart Pires, esses conceitos são resultado da falta de políticas públicas no país. "O eleitor enxerga no político alguém que irá substituir o que o Estado deveria oferecer."
Para 52%, as eleições não são limpas. Outros 21% acham que é possível o político saber em quem cada eleitor votou. "Quando você acha que é possível alguém saber seu voto, significa que a eleição não é livre", disse Marlon Reis, juiz auxiliar da presidência do TSE.

13-08-2008 | 11:20

Folha de S. Paulo

Críticos nos últimos meses às medidas que restringem a circulação de caminhões em São Paulo, diretores do Setcesp (Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas de SP) abrandaram ontem o tom e elogiaram o prefeito Gilberto Kassab (DEM).
O candidato à reeleição retribuiu e se disse aberto a conversas e entendimentos com o setor. Representantes do sindicato e da prefeitura têm mantido encontros constantes. Ontem, esteve em evento na sede do Setcesp o secretário municipal de Esportes, Walter Feldman.
Ainda ontem a empresa NTC e Logística publicou informe sobre uma TRT (Taxa de Restrição de Trânsito), que provocará um aumento de 15% nos fretes superiores a R$ 12.
"As restrições [aos caminhões] deveriam ser mesmo dentro dos 100 km2, mas elas impactaram as empresas de transporte com um custo de 44%. Isso significa um repasse de 15% de aumento", disse Flávio Benatti, da NTC. "Quero dizer, prefeito, que, por falta de comprometimento público de algumas administrações passadas, tenho que lhe elogiar. Se tivessem feito o investimento de R$ 1 bilhão no metrô em cada uma das administrações, talvez não estivéssemos vivendo a situação caótica de hoje", disse.
Apesar dos elogios, membros do Setcesp pedem a liberação dos veículos urbanos de carga e alertam sobre o repasse de custos. Ontem, o presidente Francisco Pelúcio elogiou o "ato corajoso do prefeito" e disse que algo "precisava ser feito".

13-08-2008 | 11:19

Folha de S. Paulo

O plenário da Câmara aprovou ontem à noite a criação de 3.090 cargos, todos por concurso público. A maioria deles irá atender o Ministério do Planejamento, autorizado a contratar 2.650 novos servidores. A Abin (Agência Brasileira de Inteligência) ganhou 440 novos cargos. Se todas as vagas fossem preenchidas neste ano, o impacto seria de R$ 258,6 milhões.
Os cargos da Abin foram criados por medida provisória; os demais, por projeto de lei. Os deputados rejeitaram artigo no texto que permitiria a agentes atuarem fora da agência. O texto original permitia ao servidor da Abin "colaboração esporádica, remunerada ou não, em assuntos de sua especialidade e devidamente autorizada pelo diretor-geral da Abin".
Base e oposição consideraram que isso permitiria a agentes atuarem como polícia política. Na Operação Satiagraha, da PF, servidores da Abin participaram da investigação. Em depoimento à CPI dos Grampos, na última semana, o delegado Protógenes Queiroz admitiu que agentes participaram de forma autônoma da investigação que conduziu.
Para o Planejamento, a Câmara criou 2.650 cargos por projeto de lei que tramitava com urgência constitucional. Destes, são 2.400 para analista técnico de políticas sociais; 200 para analista técnico da Susep e 50 de agente executivo para o órgão. No caso da Abin, a MP beneficia também servidores da ativa com um plano de reestruturação de carreira.

13-08-2008 | 11:17

FELIPE SELIGMAN
Folha de S. Paulo

O STF (Supremo Tribunal Federal) concedeu hábeas corpus ao banqueiro Daniel Dantas para que fique calado em depoimento na CPI dos Grampos hoje. O Supremo também mandou soltar Humberto Braz, apontado pela PF como intermediador de Dantas em suposta tentativa de suborno.

O banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity, conseguiu no STF (Supremo Tribunal Federal) um habeas corpus para ficar em silêncio durante a sessão de hoje na CPI dos Grampos, da Câmara. A decisão do ministro Joaquim Barbosa também "exclui a possibilidade" de Dantas ser preso durante o depoimento.
O ministro também autorizou que o banqueiro esteja acompanhado pelo seu advogado, podendo durante a sessão se comunicar com ele, "bem como [ter] o acesso aos documentos nos quais haja referência ao seu nome".
Ao conceder o pedido de Dantas, Barbosa citou decisões dos colegas Celso de Mello, Eros Grau e Marco Aurélio. Para Barbosa, a jurisprudência do STF "tem considerado que o privilégio contra a auto-incriminação se aplica a qualquer pessoa, independentemente de ser ouvida na condição de testemunha ou investigada".
Dantas foi preso sob suspeita de crime financeiro, em julho, na Operação Satiagraha, da Polícia Federal. Foi libertado por habeas corpus concedido pelo presidente do STF, Gilmar Mendes.

13-08-2008 | 10:22

FUPESP confirma participação em Congresso promovido pela FESEMPRE, em Belo Horizonte. O evento é voltado para dirigentes sindicais do movimento de servidores e conta com uma programação de qualidade.

13-08-2008 | 10:21

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Estrangeiros invertem posição no mercado futuro: se antes apostavam na desvalorização da moeda americana, agora acreditam em valorização


Os investidores estrangeiros, que vinham dando fortes demonstrações de confiança em relação ao Brasil, decidiram apostar pesado contra o real. Essa mudança de postura começou a se delinear no início deste mês, quando os estrangeiros começaram a inverter suas apostas no mercado de câmbio da Bolsa de Mercadorias e de Futuros (BM&F). Na ocasião, eles estavam vendidos em 152 mil contratos, correspondentes a US$ 7,6 bilhões, que, na linguagem do mercado, indicava a crença na baixa das cotações da moeda americana frente ao real. Ontem, haviam zerado as posições vendidas e estavam comprados em 66 mil contratos, equivalentes a US$ 3,3 bilhões, certos de que, a partir de agora, o dólar só vai subir. Ou seja, em apenas 12 dias, os estrangeiros deram uma virada em suas apostas de US$ 10 bilhões.

O resultado disso foi que o dólar registrou o sétimo dia consecutivo de alta. A moeda americana encerrou as negociações cotada a R$ 1,624 para venda, com valorização de 0,5%. Neste mês, o dólar já avançou 3,84%. Diante de tal reação, os economistas praticamente enterraram a possibilidade de a moeda americana romper o piso de R$ 1,50. Pelo contrário. Agora, o consenso é de que o dólar vai subir. Na projeção de Cristiano Souza, do Banco Real, é possível que a divisa feche o ano cotada a R$ 1,80, acima do R$ 1,77 registrados no fim de 2007. Se confirmado esse número, será a primeira vez, desde 2002, quando encostou nos R$ 4, que o dólar recuperará o fôlego de um ano para outro.

Por trás dos movimentos especulativos contra o real estão as commodities, mercadorias com cotação internacional, que têm forte peso na pauta de exportações e no saldo comercial do país. Entre elas, estão a soja e o milho, cujos preços vêm em queda livre há quase um mês. No entender dos estrangeiros, se esses produtos continuarem se desvalorizando, o Brasil perderá parcela importante das receitas em dólar. Com isso, o saldo comercial tomará um tombo, com impacto negativo na conta de transações correntes do país com o exterior, que, nos 12 meses terminados em julho, já computa um buraco de US$ 18,1 bilhões ou 1,32% do Produto Interno Bruto (PIB). Para o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal, é provável que o déficit em transações correntes feche o ano em US$ 28 bilhões, o correspondente a 2% do PIB.

O problema, na visão dos estrangeiros, é que esse rombo, que tende a aumentar ainda mais em 2009, terá de ser financiado com recursos que vêm de fora num momento em que a economia global dá claros sinais de retração. Com o mundo crescendo menos, haverá menor disponibilidade de dólares para países como o Brasil. É essa escassez que, segundo os estrangeiros, forçará a alta do dólar. “Sinceramente, não creio que esse cenário pessimista se concretize. Além disso, o Brasil detém mais de US$ 200 bilhões em reservas cambiais para suprir o mercado em caso de necessidade”, disse Leal.

Mas os estrangeiros não se apegam a esse fato concreto. Tanto que, em meio às apostas contra o real, reforçaram o processo de retirada de recursos da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), a despeito do lucro recorde da Petrobras no semestre, de R$ 15,7 bilhões. O Ibovespa, principal índice de lucratividade do mercado, recuou 0,4%, para os 54.503 pontos. Neste mês, as perdas já chegam a 8,4%. A Bovespa sofreu duplo impacto: a queda das commodities e a fragilidade das instituições financeiras internacionais, com novos prejuízos, fato que também abalou as bolsas mundo afora. O Banco UBS, da Suíça, registrou perdas de US$ 329 milhões no segundo trimestre e seus ativos encolheram US$ 5,1 bilhões por causa da crise dos subprimes, as hipotecas de alto risco nos Estados Unidos.

Na Bolsa de Nova York, o índice Dow Jones caiu 1,19%. Em Londres, a baixa ficou em 0,13%. Em Paris, as perdas foram de 0,44% e, no Japão, de 0,95%. A perspectiva de desaceleração das principais economias, o menor consumo de combustíveis nos EUA e o fim dos conflito entre a Rússia e a Geórgia derrubaram os preços do petróleo em Nova York para US$ 113,01 (menos US$ 1,44), menor nível desde 15 de abril. Em Londres, o recuo foi de US$ 1,52, com o barril cotado a US$ 111,15. 
 
BC avaliza o Brasil
O Banco Central aproveitou ontem o aumento da desconfiança em relação às contas externas do país para soltar um relatório no qual garante que o Brasil está muito melhor preparado para enfrentar crises internacionais e, por tabela, escassez de recursos. No documento, intitulado Evolução dos Indicadores de Sustentabilidade Externa, o BC afirma que o fato de o Brasil voltar a registrar, depois de cinco anos, déficit em transações correntes com exterior é perfeitamente normal, pois decorre do forte crescimento econômico do país. A instituição garante ainda que o rombo esperado para este ano, de US$ 21 bilhões — nos 12 meses terminados em junho, está em US$ 18,1 bilhões —, será totalmente financiado pelos investimentos estrangeiros diretos (IED), voltados para a produção, que devem bater em US$ 35 bilhões.

No relatório, mesmo que de forma sutil, o BC admite, porém, que há riscos de haver uma disparada dos preços do dólar, caso as empresas brasileiras que, nos últimos anos, lançaram ações (IPOs, na sigla em inglês) optem pelo fechamento de capital. Numa linguagem mais clara, ao fecharem o capital, as empresas seriam obrigadas a recomprar as ações que estão em poder dos investidores, inclusive dos estrangeiros, que, por sua vez, teriam de recorrer ao mercado de dólares para remeter os valores a seus países de origem. O problema é que, nesses IPOs, em média, os estrangeiros ficaram com 70% das ações. Nas contas dos BC, o estoque de papéis de companhias brasileiras fora do país totalizava, em 2007, US$ 198 bilhões, quantia superior ao investimento estrangeiro na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).

Para o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal, o risco de um fechamento em massa do capital de empresas brasileiras é remoto. Mas ele não descarta a possibilidade de haver um movimento de recompra de parte dos papéis, devido aos baixos preços na Bovespa. “E isso valeria para os estrangeiros, donos de boa parcela das ações”, disse. Desde o início do ano, os estrangeiros retiraram US$ 9,5 bilhões (pela cotação de ontem) da bolsa paulista, temendo a queda das commodities (soja, milho e petróleo e minérios, principalmente). Mais de 50% do Ibovespa, o índice de lucratividade do mercado, são compostos por ações de empresas produtoras de commodities, como a Vale e a Petrobras.

Em contraponto à fuga dos estrangeiros do mercado de ações, o BC ressalta que está havendo ingressos em títulos públicos. Lembra que as reservas cambiais do país superam os US$ 200 bilhões — o oitavo maior volume do mundo. Assinala que o déficit em transações correntes, de 1,32% do Produto Interno Bruto (PIB), está abaixo da média histórica, de 1,75%, e de vários países emergentes com classificação de risco semelhante ao brasileiro. E, para arrematar, frisa que a dívida externa desabou de 41,8% para 15% do PIB entre 2002 e 2008. (VN)


INFLAÇÃO DEVE CONTER JUROS
A queda da inflação vai forçar o Banco Central a interromper rapidamente o processo de aumento da taxa básica de juros (Selic), que, entre abril e julho, saltou de 11,25% para 13% ao ano. A expectativa é do novo presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Adalberto Savioli. “Não há porque os juros subirem mais, pois a inflação está sob controle. Se houver novas elevações da Selic, a demanda por crédito vai se reduzir de forma acentuada, prejudicando o crescimento econômico do país e estimulando o desemprego”, disse. Ele afirmou que, para diluir o aumento dos juros nas prestações, bancos e financeiras estão alongando os prazos dos empréstimos e sendo mais seletivos nas concessões, de forma a manter a inadimplência sob controle. As taxas de juros dos empréstimos pessoais atingiram o patamar mais elevado em cinco anos: 95% anuais.

13-08-2008 | 10:03

Edson Luiz
Correio Braziliense

Nas duas horas em que esteve na Polícia Federal, o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força, negou participação no esquema de desvios de financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), desarticulado em abril pela Operação Santa Tereza. Mesmo assim, investigadores que atuam no caso estão convictos do envolvimento do parlamentar, conforme relatórios de inteligência enviados ao Ministério Público. Paulinho foi ouvido pelo delegado Rodrigo Levin, à pedido do Supremo Tribunal Federal (STF).

Praticamente o deputado nada acrescentou à investigação e nem mudou o discurso que vem adotando desde que surgiram as suspeitas de seu envolvimento com os fraudadores dos empréstimos do BNDES, incluindo João Pedro de Moura, seu ex-assessor. “Trouxe ao delegado nota de uma auditoria do BNDES mostrando que não tem nenhuma irregularidade. Portanto, ficou comprovado que é perseguição contra mim pelo meu trabalho no Congresso”, disse Paulinho, que não deu entrevistas, limitando-se à declaração. Seu advogado, Antônio Rosella, afirmou que não há nada que envolva seu cliente.

Paulinho disse ao delegado que não sabia da existência do esquema e que seu nome foi usado indevidamente pelos integrantes da quadrilha. Quanto ao envolvimento de Moura com seu cliente, o advogado do deputado afirmou que ele contou ao delegado que o ex-assessor ia a seu gabinete tratar de assuntos relacionados à Força Sindical. Mesmo antes de começar a ouvir o parlamentar, o delegado Rodrigo Levin já havia decidido que não iria indiciá-lo. “Pelo entendimento do STF não podemos indiciar, por causa do foro privilegiado”, afirmou o policial.

Mas motivos haveria, segundo investigadores, por causa de provas que estão sendo levantadas pela PF na análise dos documentos apreendidos durante a Operação Santa Tereza. Em um relatório enviado no final de junho para o Ministério Público Federal, o delegado afirma ter convicção de que o deputado foi um dos beneficiados com o dinheiro dos recursos desviados. Porém, Levin afirma que a investigação de Paulinho estava sendo feita em um outro procedimento. “As denúncias são relacionadas a terceiros. Quanto ao deputado, isso é perseguição”, afirma Rosella.

As principais perguntas de Levin foram relacionadas à investigação dos desvios dos financiamentos do BNDES, sem abordar outros temas, como o depósito de R$ 37,5 mil feito na conta da Meu Guri, organização não-governamental dirigida por Elza Pereira, mulher de Paulinho. O delegado pretende encaminhar em uma semana um relatório ao STF, mostrando o envolvimento do parlamentar. Um dos fatos já apurados seria a utilização, pelo político, de ONGs para fazer a partilha do dinheiro desviado entre os acusados.

Hoje, o delegado será ouvido pelo Conselho de Ética da Câmara, que abriu um processo de quebra de decoro contra Paulinho. Levin deverá entregar documentos que mostram o envolvimento do parlamentar com os desvios do BNDES.

13-08-2008 | 10:01