| Vicente Nunes |
| Correio Braziliense |
Estrangeiros invertem posição no mercado futuro: se antes apostavam na desvalorização da moeda americana, agora acreditam em valorização
Os investidores estrangeiros, que vinham dando fortes demonstrações de confiança em relação ao Brasil, decidiram apostar pesado contra o real. Essa mudança de postura começou a se delinear no início deste mês, quando os estrangeiros começaram a inverter suas apostas no mercado de câmbio da Bolsa de Mercadorias e de Futuros (BM&F). Na ocasião, eles estavam vendidos em 152 mil contratos, correspondentes a US$ 7,6 bilhões, que, na linguagem do mercado, indicava a crença na baixa das cotações da moeda americana frente ao real. Ontem, haviam zerado as posições vendidas e estavam comprados em 66 mil contratos, equivalentes a US$ 3,3 bilhões, certos de que, a partir de agora, o dólar só vai subir. Ou seja, em apenas 12 dias, os estrangeiros deram uma virada em suas apostas de US$ 10 bilhões.
O resultado disso foi que o dólar registrou o sétimo dia consecutivo de alta. A moeda americana encerrou as negociações cotada a R$ 1,624 para venda, com valorização de 0,5%. Neste mês, o dólar já avançou 3,84%. Diante de tal reação, os economistas praticamente enterraram a possibilidade de a moeda americana romper o piso de R$ 1,50. Pelo contrário. Agora, o consenso é de que o dólar vai subir. Na projeção de Cristiano Souza, do Banco Real, é possível que a divisa feche o ano cotada a R$ 1,80, acima do R$ 1,77 registrados no fim de 2007. Se confirmado esse número, será a primeira vez, desde 2002, quando encostou nos R$ 4, que o dólar recuperará o fôlego de um ano para outro.
Por trás dos movimentos especulativos contra o real estão as commodities, mercadorias com cotação internacional, que têm forte peso na pauta de exportações e no saldo comercial do país. Entre elas, estão a soja e o milho, cujos preços vêm em queda livre há quase um mês. No entender dos estrangeiros, se esses produtos continuarem se desvalorizando, o Brasil perderá parcela importante das receitas em dólar. Com isso, o saldo comercial tomará um tombo, com impacto negativo na conta de transações correntes do país com o exterior, que, nos 12 meses terminados em julho, já computa um buraco de US$ 18,1 bilhões ou 1,32% do Produto Interno Bruto (PIB). Para o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal, é provável que o déficit em transações correntes feche o ano em US$ 28 bilhões, o correspondente a 2% do PIB.
O problema, na visão dos estrangeiros, é que esse rombo, que tende a aumentar ainda mais em 2009, terá de ser financiado com recursos que vêm de fora num momento em que a economia global dá claros sinais de retração. Com o mundo crescendo menos, haverá menor disponibilidade de dólares para países como o Brasil. É essa escassez que, segundo os estrangeiros, forçará a alta do dólar. “Sinceramente, não creio que esse cenário pessimista se concretize. Além disso, o Brasil detém mais de US$ 200 bilhões em reservas cambiais para suprir o mercado em caso de necessidade”, disse Leal.
Mas os estrangeiros não se apegam a esse fato concreto. Tanto que, em meio às apostas contra o real, reforçaram o processo de retirada de recursos da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), a despeito do lucro recorde da Petrobras no semestre, de R$ 15,7 bilhões. O Ibovespa, principal índice de lucratividade do mercado, recuou 0,4%, para os 54.503 pontos. Neste mês, as perdas já chegam a 8,4%. A Bovespa sofreu duplo impacto: a queda das commodities e a fragilidade das instituições financeiras internacionais, com novos prejuízos, fato que também abalou as bolsas mundo afora. O Banco UBS, da Suíça, registrou perdas de US$ 329 milhões no segundo trimestre e seus ativos encolheram US$ 5,1 bilhões por causa da crise dos subprimes, as hipotecas de alto risco nos Estados Unidos.
Na Bolsa de Nova York, o índice Dow Jones caiu 1,19%. Em Londres, a baixa ficou em 0,13%. Em Paris, as perdas foram de 0,44% e, no Japão, de 0,95%. A perspectiva de desaceleração das principais economias, o menor consumo de combustíveis nos EUA e o fim dos conflito entre a Rússia e a Geórgia derrubaram os preços do petróleo em Nova York para US$ 113,01 (menos US$ 1,44), menor nível desde 15 de abril. Em Londres, o recuo foi de US$ 1,52, com o barril cotado a US$ 111,15.
BC avaliza o Brasil
O Banco Central aproveitou ontem o aumento da desconfiança em relação às contas externas do país para soltar um relatório no qual garante que o Brasil está muito melhor preparado para enfrentar crises internacionais e, por tabela, escassez de recursos. No documento, intitulado Evolução dos Indicadores de Sustentabilidade Externa, o BC afirma que o fato de o Brasil voltar a registrar, depois de cinco anos, déficit em transações correntes com exterior é perfeitamente normal, pois decorre do forte crescimento econômico do país. A instituição garante ainda que o rombo esperado para este ano, de US$ 21 bilhões — nos 12 meses terminados em junho, está em US$ 18,1 bilhões —, será totalmente financiado pelos investimentos estrangeiros diretos (IED), voltados para a produção, que devem bater em US$ 35 bilhões.
No relatório, mesmo que de forma sutil, o BC admite, porém, que há riscos de haver uma disparada dos preços do dólar, caso as empresas brasileiras que, nos últimos anos, lançaram ações (IPOs, na sigla em inglês) optem pelo fechamento de capital. Numa linguagem mais clara, ao fecharem o capital, as empresas seriam obrigadas a recomprar as ações que estão em poder dos investidores, inclusive dos estrangeiros, que, por sua vez, teriam de recorrer ao mercado de dólares para remeter os valores a seus países de origem. O problema é que, nesses IPOs, em média, os estrangeiros ficaram com 70% das ações. Nas contas dos BC, o estoque de papéis de companhias brasileiras fora do país totalizava, em 2007, US$ 198 bilhões, quantia superior ao investimento estrangeiro na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).
Para o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal, o risco de um fechamento em massa do capital de empresas brasileiras é remoto. Mas ele não descarta a possibilidade de haver um movimento de recompra de parte dos papéis, devido aos baixos preços na Bovespa. “E isso valeria para os estrangeiros, donos de boa parcela das ações”, disse. Desde o início do ano, os estrangeiros retiraram US$ 9,5 bilhões (pela cotação de ontem) da bolsa paulista, temendo a queda das commodities (soja, milho e petróleo e minérios, principalmente). Mais de 50% do Ibovespa, o índice de lucratividade do mercado, são compostos por ações de empresas produtoras de commodities, como a Vale e a Petrobras.
Em contraponto à fuga dos estrangeiros do mercado de ações, o BC ressalta que está havendo ingressos em títulos públicos. Lembra que as reservas cambiais do país superam os US$ 200 bilhões — o oitavo maior volume do mundo. Assinala que o déficit em transações correntes, de 1,32% do Produto Interno Bruto (PIB), está abaixo da média histórica, de 1,75%, e de vários países emergentes com classificação de risco semelhante ao brasileiro. E, para arrematar, frisa que a dívida externa desabou de 41,8% para 15% do PIB entre 2002 e 2008. (VN)
INFLAÇÃO DEVE CONTER JUROS
A queda da inflação vai forçar o Banco Central a interromper rapidamente o processo de aumento da taxa básica de juros (Selic), que, entre abril e julho, saltou de 11,25% para 13% ao ano. A expectativa é do novo presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Adalberto Savioli. “Não há porque os juros subirem mais, pois a inflação está sob controle. Se houver novas elevações da Selic, a demanda por crédito vai se reduzir de forma acentuada, prejudicando o crescimento econômico do país e estimulando o desemprego”, disse. Ele afirmou que, para diluir o aumento dos juros nas prestações, bancos e financeiras estão alongando os prazos dos empréstimos e sendo mais seletivos nas concessões, de forma a manter a inadimplência sob controle. As taxas de juros dos empréstimos pessoais atingiram o patamar mais elevado em cinco anos: 95% anuais.
