| Claudia Safatle |
| Valor Econômico |
O governo prepara duas novas medidas provisórias para aumentar os salários de mais de 300 mil funcionários públicos. Uma reajustará e reorganizará os vencimentos das carreiras típicas de Estado. A outra abrangerá os que ficaram de fora da medida provisória 431, já aprovada na Câmara dos Deputados, e que beneficiou 800.512 servidores civis e 611 mil militares, além de aposentados e pensionistas, ao custo de R$ 32 bilhões até 2012. Assim, ao final do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a despesa de pessoal deverá estar próxima a R$ 200 bilhões.
Além dos aumentos de salários, o governo abriu novas 110 mil vagas em concursos públicos de 2004 para cá, dobrando a contratação em relação aos cerca de 50 mil funcionários que se aposentaram no mesmo período.
O processo de aumento da folha não terminou. Agora, discute-se, no governo, a abertura de 400 mil vagas para alunos nas universidades federais até 2011. Isso significará a contratação de centenas de novos professores e funcionários da área administrativa. Há uma boa folga para aumento da produtividade, pois enquanto no Brasil a relação é de oito alunos para um professor, nos países desenvolvidos essa relação é de 18 por 1. Mas só ganho de eficiência não será suficiente para suprir as novas metas.
O aumento da oferta de vagas nas escolas federais é parte da resposta do governo à pressão por mão-de-obra qualificada em todas as áreas. "O Brasil começou a crescer e já não há mão-de-obra disponível. Não há engenheiros. Vamos ser francos, se se quer mudar o país nos próximos 30 anos tem que ter educação", argumenta o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo.
Responsável pela política de recursos humanos do governo, o ministro defende a recuperação dos salários do setor público que foi feita na gestão de Lula, tornando o emprego público alvo de ambição de boa parte dos jovens que se formam no país, atraídos pelos vencimentos, pela estabilidade e pela aposentadoria que ainda é integral (é bom lembrar que a mudança na aposentadoria do servidor, aprovada em 2003, ainda não foi regulamentada).
Passar num concurso é ganhar na loteria
"Agora os salários são competitivos e podemos prestar melhores serviços à sociedade", acredita Bernardo. Na verdade, como ele próprio reconhece, o que não era competitivo eram os vencimentos para o nível superior. Os salários do nível médio, no Executivo, já eram compatíveis com os do setor privado.
A MP 431, que seguiu para o Senado, traz mudanças importantes na estrutura remuneratória de grande parte das categorias, que serão introduzidas também nas duas novas MPs. Todos os penduricalhos remuneratórios que faziam parte do contracheque do servidor foram incorporados aos salários e este agora é composto apenas pelo vencimento básico e pela gratificação de desempenho de cada carreira ou categoria. Não era raro um funcionário ganhar como vencimento básico um salário mínimo e ter uma maçaroca de gratificações e benefícios para lhe render remuneração razoável. Só com o aumento do mínimo, a folha, este ano, cresceu R$ 2,4 bilhões, conta o ministro.
Na corrida pela recomposição de salários, no entanto, algumas pressões de corporações foram acatadas, gerando novas distorções. Na reestruturação das carreiras típicas de Estado (Receita Federal, Banco Central, Advocacia-Geral da União, dentre outras), o piso salarial para um advogado da União será de R$ 14.200, patamar certamente superior ao que um advogado recém-formado conseguirá ganhar no setor privado. Em 2002, esse mesmo advogado ganhava R$ 3.564.
Como não há razão para um advogado da AGU ganhar mais do que um fiscal da Receita Federal do Brasil, ou para um economista do Banco Central ganhar menos do que o fiscal da Receita, a busca pela isonomia foi puxando uma fila infindável de aumentos salariais. E não dá para aumentar os salários mais altos sem elevar o piso, diz o ministro. Até porque há um mecanismo de gradação salarial que começa com o teto do Judiciário e vai se espraiando pelas demais carreiras e categorias do funcionalismo também do Executivo.
Há uma benevolência geral das forças políticas com essa matéria. O ministro do Planejamento conta que quando uma carreira de servidores está em greve, parlamentares telefonam pedindo para o governo atender às reivindicações daquela corporação. Se são funcionários que têm relação direta com atividades do setor privado, como os fiscais da Receita Federal, os próprios empresários pressionam o governo a dar um jeito de acabar com a greve por estar lhes prejudicando. Não há quem queira colocar rédeas nessas demandas. O governo ameaçou cortar os dias parados das inúmeras categorias que entraram em greve nos últimos anos, mas foi vetado pelo Judiciário. E o governo também se omite ao não se empenhar na elaboração e aprovação de uma lei de greve para o funcionalismo e ao nem tentar aprovar a medida provisória que mofa no Congresso, que impõe teto à despesa de pessoal.
Com a conclusão das negociações das duas medidas provisórias citadas, todos os servidores terão sido contemplados por aumentos salariais generosos. Seria mais do que justo se imaginar que, de agora em diante, haverá uma regra, uma política salarial para se aplicar ao funcionalismo dos três poderes. Até porque, no caso do Executivo, as negociações são razoavelmente transparentes. O Legislativo, quando cogita conceder reajustes para os deputados e senadores ou para os funcionários das duas casas, a mídia noticia e produz alguma reação da opinião pública. Já no Judiciário e no Ministério Público, os aumentos de salários e benefícios são distribuídos sem cerimônia e sem qualquer prestação de contas ao contribuinte. Pessoal é, ao lado da Previdência Social, o maior item de despesa do Orçamento da União e os reajustes concedidos vão na contramão do esforço necessário para conter as pressões inflacionárias.
Até o momento, porém, não há qualquer norma definida para o futuro. O ministro do Planejamento defende que, de agora em diante, a folha de pagamentos seja corrigida pela inflação e nada mais. Mas essa é somente uma idéia do ministro.
Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação e escreve às sextas-feiras